domingo, 4 de outubro de 2015



Andrzej Krauze
 "Pense no que mudaria se valorizássemos a água terrestre, tanto quanto valorizamos a possibilidade de água em Marte." Fotografia: Andrzej Krauze

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que existe vida inteligente na Terra?






Evidência para a água fluindo em Marte: isso abre a possibilidade de vida, de maravilhas, que nem podemos começar a imaginar. Sua descoberta é uma realização surpreendente. Enquanto isso, os cientistas marcianos continuam sua busca por vida inteligente na Terra.

Podemos ser cativados pelo pensamento de organismos em outro planeta, mas parecemos ter perdido interesse em nossa próprio. O Dicionário Oxford para crianças está extirpando palavras marcantes do mundo vivo. Somadores, amoras, jacintos, azevinho, peixinhos, lontras, prímulas, tordos, doninhas e carriças são agora consideradas palavras excedentes.

Nas últimas quatro décadas, o mundo perdeu 50% de sua fauna de vertebrados. Mas em toda a segunda metade deste período, tem havido um declínio acentuado na cobertura da mídia. Em 2014, de acordo com um estudo da Universidade de Cardiff, havia tantas notícias difundidas pela BBC e ITV sobre Madeleine McCann (menina que desapareceu em Portugal em 2007) como havia sobre toda a gama de questões ambientais.

Pense o que mudaria se valorizássemos a água terrestre tanto quanto valorizamos a possibilidade de haver água em Marte. Apenas 3% da água do nosso planeta é doce; da qual, dois terços é congelada. Ainda assim, emporcalhamos a porção acessível. Sessenta por cento da água utilizada na agricultura é desnecessariamente perdida por uma irrigação descuidada. Rios, lagos e aqüíferos são sugados até secarem, enquanto a água que resta é muitas vezes tão contaminada que ameaça a vida de quem a bebe. No Reino Unido, a demanda doméstica é tal que o curso superior de muitos rios desaparece durante o verão. No entanto, ainda instalamos chuveiros e primitivos banheiros antigos que jorram como cachoeiras.

Quanto à água salgada, do tipo que tanto nos fascina como aquela aparentemente detectada em Marte, na Terra expressamos nossa apreciação com um frenesi de destruição. Um novo relatório sugere que o número de peixes [nos oceanos] diminuiu para metade desde 1970. A tuna de barbatana azul do pacifico, que já habitou os mares em incontáveis ​​milhões, foi reduzida para uma população estimada em 40.000, e continuam sendo perseguida Os recifes de coral estão sob tamanha pressão que a maioria poderá ter desaparecido em 2050. E nos mares, em nosso próprio espaço profundo, o desejo de capturar peixes exóticos rasga através de um mundo menos conhecido do que a superfície do planeta vermelho. Os arrastões operam agora em profundidades de 2.000 metros. Nós só podemos imaginar o que eles podem estar destruindo. 

Poucas horas antes da descoberta marciana ser anunciada, a Shell encerrou sua prospecção de petróleo do Ártico. Para os acionistas da empresa, é um desastre menor: uma perda de US $ 4 bilhões; para aqueles que amam o planeta e a vida que ele sustenta, é um golpe de grande fortuna. Mas aconteceu apenas porque a empresa não conseguiu encontrar reservas suficientes.  Se a Shell tivesse sucedido, ela teria exposto um dos lugares mais vulneráveis ​​da Terra a derramamentos, que são quase inevitáveis, em local onde a contenção é quase impossível. Será que estamos deixando tais assuntos para o acaso? 

 No início de setembro, duas semanas depois de ter concedido permissão para a Shell perfurar no mar de Chukchi, Barack Obama viajou para o Alasca para avisar os americanos sobre os efeitos devastadores que a mudança climática causada pela queima de combustíveis fósseis poderia catalisar no Ártico. "Não é suficiente apenas falar por falar", disse-lhes. "Nós temos que trilhar nossa caminhada." Nós devemos "abraçar a ingenuidade humana que pode fazer algo sobre essa situação". A ingenuidade humana está em abundante exibição na Nasa, que divulgou imagens surpreendentes. Mas não quando se trata de política.

Deixar o mercado decidir: esta é a maneira pela qual os governos procuram resolver destruição planetária. Deixe isso para a consciência dos consumidores, mas a consciência está muda e confusa com propaganda e mentiras das corporações. Em um quase vácuo de informação, somos cada um deixado a decidir o que devemos tirar de outras espécies e de outras pessoas, o que devemos abocanhar para nós mesmos ou deixar para as gerações seguintes. Certamente existem alguns recursos e alguns lugares - como o Ártico e o mar profundo - cuja exploração deveria simplesmente parar?

Toda essa perfuração, escavação, arrastão, descarga e envenenamento - o que é tudo isso, afinal? Será que tais atividades enriquecem a experiência humana, ou a sufoca? Um par de semanas atrás eu lancei o #extremecivilisation hashtag, e pedi sugestões. Elas vieram em inundação. Aqui estão apenas alguns dos produtos encontrados por meus correspondentes. Todos eles, tanto quanto eu possa dizer, são reais. 

Uma bandeja de ovos para seu refrigerador que se sincroniza com o seu telefone para que você saiba quantos ovos sobram. Uma maquineta para misturar os ovos - ainda dentro de suas cascas. Perucas para bebês, para permitir que "os bebes meninas com pouco ou nenhum cabelo tenham a oportunidade de ter um belo e realista estilo de penteado." O iPotty, que permite crianças a continuar jogando em seus iPads durante o treinamento higiênico. Uma cabana à prova de aranha de £2.000. Uma sauna de neve, à venda nos Emirados Árabes Unidos, no qual você pode criar um paraíso de inverno com o apertar de um botão. Um container de melancia refrigerado sobre rodas: indispensável ​​para piqueniques - ou talvez não, porque pesa mais do que o melão. Creme de branqueamento anal, para ... para ser honesto, eu não quero saber. Um "girador de corda automático para relógio" que poupa o incômodo de dar corda na sua doçura-de-pulso de luxo. Um smartphone para cães, com o qual eles podem tirar fotos de si mesmos. Bananas pré-descascada-, em bandejas de poliestireno cobertas de filme plástico; tens apenas que descascar a embalagem. 

Todos os anos, novas maneiras inteligentes de desperdiçar coisas são concebidas, e todos os anos nos tornamos mais acostumados com o consumo inútil de recursos preciosos do mundo. Com cada intensificação sutil, a linha de base da normalidade se desloca. Não deveria ser surpreendente descobrir que quanto mais rico um país se torna, menos suas pessoas se preocupam com seus impactos sobre o planeta vivo.

Nossa alienação do mundo de maravilhas, dentro do qual evoluímos, tem-se intensificado desde que David Bowie descreveu uma menina caindo dentro de um "sonho profundo", em sua maneira de ser "presa pela tela de prata", onde uma longa série de distrações a desviam das grandes questões da vida. A canção, é claro, era Vida em Marte.



 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

É urgente que a colaboração surja nas ciências e tecnologias

Pesquisador, que estuda interação entre as florestas e atmosfera, defende uma abordagem mais ampla do planeta

artigo em O Globo por

RIO - Um dos convidados do colóquio "Os mil nomes de Gaia", que acontece de 15 a 19 de setembro na Casa de Rui Barbosa, Antonio Nobre é o que se pode chamar de "cientista da terra". Pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pesquisador Visitante no Centro de Ciência do Sistema Terrestre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, onde lidera o grupo de modelagem de terrenos, ele estuda as interações entre as florestas e a atmosfera, mas também tem desenvolvido, nos últimos anos, uma abordagem mais ampla do planeta.
Nobre, que participa da mesa-redonda, no dia 16 de setembro, às 10h30, com a filósofa belga Isabelle Stengers (criadora do conceito de "intrusão de Gaia") e o antropólogo mexicano Carlos Mondragón, acredita que a Amazônia se tornou um terreno de demonstração importante para uma reanálise da teoria neo-Darwinista da evolução, questionando a noção implícita de que o processo essencial da seleção natural embutia em si o "enobrecimento do egoísmo", que extrapolou a esfera da ciência e foi absorvida pela cultura, a economia e a ciência. Segundo o cientista, já está comprovado que a colaboração entre as espécies é mais importante para um sistema do que a competição - ideia que pode nortear uma nova maneira de pensar a preservação do meio ambiente e evitar um colapso ambiental.

O que se pode entender por Gaia? 

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Antonio Nobre. O nome vem da denominação de povos antigos ao ente feminino que rege os elementos da natureza na Terra. O conceito científico inspirado por tal nome é descrito em uma teoria reveladora de um planeta complexo e autorregulado, com a participação ativa (e maciça) dos seres vivos na miríade de processos interconectados, geradores de bem-estar e equilíbrio no habitat. A teoria de Gaia em seu início era apenas uma hipótese, derivada da percepção de James Lovelock e Lynn Margulis de que as condições encontradas na Terra se desviavam muito do que seria de se esperar se forças puramente geofísicas e geoquímica agissem sozinhas ao longo de bilhões de anos, como ocorre nos demais corpos celestes cujas condições de superfície são conhecidas. Algo na Terra era responsável por tais desvios, que a tornavam amena e favorável à vida. A hipótese de Gaia sugeriu que a própria vida era esse algo a mais na Terra, capaz de reagir ativamente às flutuações cataclísmicas de origem interna ou cósmicas, regulando o ambiente de superfície e o otimizando para favorecer seu próprio desenvolvimento. Quatro décadas depois a hipótese já é respeitada como teoria, e o que antes era apenas sugestões lógicas, hoje acumulou extensiva base de observações e elaborações formais que lhe dão suporte. Tal teoria propõe e demonstra como a biosfera, o conjunto de todos os seres vivos da Terra, interferem de maneira reguladora no funcionamento do Sistema Terrestre, através da manipulação não arbitrária dos fluxos de matéria e energia.
 Comprovar cientificamente a ideia de que o individualismo e o egoísmo cumprem um papel de regulação na Terra teria sido uma obsessão do século XX?
 
Antonio Nobre. Como esta ideia norteou a ciência e a nossa concepção de ecossistema? Infelizmente, na progressão explosiva dos últimos cinco séculos, pós-liberação do indigno jugo religioso-inquisitório, a ciência se fragmentou e algumas percepções isoladas e incompletas dos processos naturais hipertrofiaram-se querendo abarcar o todo. A noção implícita de que o processo essencial da seleção natural embutia em si o "enobrecimento do egoísmo" foi um erro grave que bloqueou a visão de outros processos essenciais para o funcionamento do conjunto. Muito bom percebermos o valor intrínseco da seleção natural, mas ruim que esse valor tenha inflado o crescimento de um novo tipo de dogmatismo que não admite nada fora do seu arcabouço conceitual estreito. E aí funcionou de maneira anômala um principio que, em geral, é útil, a navalha de Occam (Guilherme de Ockham: "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor"). A explicação da seleção natural para a variedade de organismos era sem dúvida melhor do que as explicações anteriores, mas ela não era idêntica em tudo o mais com explicações que viriam depois. Vasto campo de complexidade, invisível antes do surgimento da biologia molecular, permaneceu ignorado no auge do desenvolvimento do Darwinismo. E suspeita-se que parte maior da complexidade bioquímica na base do funcionamento dos sistemas vivos ainda permaneça oculta. Por exemplo, a explicação mais simples, como aquela na base da teoria da evolução baseada apenas nos mecanismos demonstrados da seleção natural, não dá conta de clarificar o papel da vida na regulação do ambiente planetário. Ademais, existem explicações simplíssimas ilustrando o papel central da colaboração na evolução de complexidade, que são rejeitadas apenas porque não batem com o que tornou-se um dogma excludente, o da competição e da sobrevivência do mais apto.

Podemos comprovar cientificamente que a colaboração é tão importante quanto a competição na regulação do planeta?
 
Antonio Nobre. A explicação da necessidade inescapável para efeitos regulatórios é dada com uma analogia ao surf. Surfar a onda dá vantagem a quem sabe se colocar e tirar da onda proveito. Mas não muda em nada o funcionamento da própria onda. Se a cada mudança ambiental os organismos e ecossistemas "surfassem" para seu próprio beneficio, -como preconiza a percepção estreita da seleção natural e da sobrevivência do mais apto-, o efeito seria uma incapacidade absoluta para resistir à propria mudança ambiental. As novas formas surgidas com o novo ambiente, estando adaptadas ao novo e excluindo as formas anteriores, não terão qualquer efeito estabilizador. Estabilidade requer opor resistência à mudança, como faz o termostato de um ar condicionado. A competição, importante como mecanismo de segurança (quando falham todos os demais mecanismos de colaboração, ela é salvadora), assume papel restrito nos processos regulatórios, justamente porque é desestabilizadora (o ganhador leva tudo). Quanto mais rico e complexo um sistema, menor o papel da competição e maior o da colaboração. Tem aí um principio organizador básico, análogo ao descrito pelos trabalhos de John Nash no surgimento de equilíbrio entre competição e colaboração (Teoria de Jogos).

Como o establishment reage a esta teoria?

Antonio Nobre. O establishment reage como sempre reagiu, da forma descrita por Thomas Kuhn em seu épico "A estrutura das revoluções científicas". Mas o novo paradigma já está bastante maduro e substanciado, me parece que breve passaremos pelo ponto de inflexão onde os conceitos da seleção natural e da sobrevivência do mais apto serão finalmente creditados por seu valor real, não aquele inflado e dogmático de até recentemente.

Por que o mundo ainda tem tanta dificuldade de ver as relações entre meio ambiente, ciência e tecnologia?

Antonio Nobre. Porque o meio ambiente opera em escalas de espaço (átomos, moléculas, continentes, oceanos, etc.) e tempo (fenômenos quânticos, dinâmicas moleculares, intervalos de milênios, milhões e bilhões de anos) difíceis para visualizar e captar pelos sentidos comuns do ser humano. Acrescente-se aí para a vida o automatismo (tudo funciona sem intervenções humanas) e então a máxima ocidental de que "o coração não sente o que os olhos não veem" explica porque permanecemos inertes diante da grandiosidade destes fenômenos que nos permitiram existir e que continuam a nos suportar. Isso para o senso comum, para os leigos nas sociedades humanas. Mais injustificável é quem lida com ciência e tecnologia, que tem estendido enormemente nossos sentidos, não traduzir para as pessoas normais o que lhes é facultado ver e perceber sobre o ambiente com suas ferramentas. E a razão única para tal dificuldade reside na competição desagregadora, onde cada cabeça "mais apta" isola-se mais e mais em seu campo de domínio, ignorando as demais que lhe desafiam.

A cada encontro internacional, há um consenso de que os movimentos de colaboração necessários para impedir um provável colapso ambiental não evoluem. Quais são os caminhos para mudar esta história?

Antonio Nobre. É urgente que a colaboração surja nas ciências e tecnologias, permitindo uma união do conhecimento, esclarecedora e simplificadora, que crie uma nova compreensão acessível sobre o mundo e seus intrincados processos de suporte à vida. Em outro estudo que fiz (O futuro climático da Amazônia) sugiro um esforço de guerra no combate à principal causa do descaminho ambiental, a "ignorância". É a ignorância que maneja os sistemas humanos em escala planetária, nos governos, nas empresas, em cada pessoa, e ela precisa ceder se queremos impedir o provável colapso. O melhor caminho para mudar essa historia é reabilitar o senso comum amplo através da contação de historias reais com o toque lúdico, tocar o emocional das pessoas com o estimulo ao senso infantil de maravilhar-se. É preciso despertar nossos corações, de onde saem os impulsos para a ação. A ciência e a tecnologia moderna nos colocou nas mãos de microscópios, telescópios, satélites, supercomputadores e uma infinidade mirabolante de outros instrumentos poderosos, com os quais podemos fazer nossos olhos finalmente verem tudo que há no mundo, pequeno e gigantesco, rápido e ultra lento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Parem esse tormento, basta ao desmatamento,...

Mazzola disse:
BAILARINA
Cantinho da Via Láctea,
em nosso sistema solar,
existe uma esfera pequena,
bailarina de azul e serena,
no espaço vive à girar.
Circula há bilhões de anos,
mostrando-se ao infinito,
não existe no Universo,
um planeta mais bonito.
Seu nome, Terra ou “Gaia”,
a mãe de todos; então,
tem no mapa do Brasil,
onde existe muito rio,
a forma de um coração.
Isso não é à toa,
quis “DEUS” que fosse assim,
ali, na selva Amazônica,
sempre pulsará; enfim,
lá nascerá o ritmo,
dos ciclos da Natureza,
melhorando nosso clima,
água, ar, muita beleza.
Parem esse tormento,
basta ao desmatamento,
deixem a vida pulsar,
essa é a única esperança,
de continuar sua dança,
o show não pode parar.

Mazzola/FMU/GA
2º semestre
XXX/XI/MMVIII

comentario na pagina da Envolverde http://www.envolverde.com.br/6-eventos-2015/como-a-fe-pode-ajudar-o-meio-ambiente/

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por que a Esquerda Enveredou para o Crime

Augusto de Franco
Uma análise

O que está acontecendo com o PT não é um fenômeno isolado. Aconteceu com vários grupos da esquerda autocrática depois da queda do muro de Berlim. Sobretudo na América Latina, em que muitos dirigentes de organizações ditas revolucionárias enveredaram para o crime.

Conheci vários desses militantes que viraram bandidos. Daniel Ortega, da Frente Sandinista, hoje presidente da Nicarágua, foi um deles. Me lembro como se fosse hoje. Ele foi convidado de honra no I Congresso do PT (que coordenei), no final de 1991. Chegando lá, no Hotel Pampa, em São Bernardo, Daniel pediu logo ao tesoureiro do PT à época, se não podia arranjar umas prostitutas. Esse Daniel e seu irmão Humberto, eram teleguiados de Fidel, que lhes passava pitos, aos berros. Reuniões decisivas para o futuro da chamada revolução sandinista foram realizadas em Havana, sob o comando de Fidel. E enquanto as bases petistas da Igreja idolatravam por aqui os sandinistas como expoentes de uma nova espiritualidade dos pobres, esses bandidos assaltavam patrimônio público (inclusive passavam para seus nomes propriedades imóveis) do Estado nicaraguense.

O mesmo ocorreu com gente da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional de El Salvador, que também está no governo. Aconteceu com o Mir (e com o Mir Militar) chileno, com alguns Tupamaros, com as FARC colombianas e, é claro, com a nova leva de bolivarianos, que não tinham tanta tradição de esquerda, como Chávez, Maduro e Cabello (mas aí já estamos falando de delinquentes da pior espécie, que inclusive chefiam o narcotráfico na região) e como Rafael Correa e Evo Morales. Bem, para resumir, aconteceu com boa parte das organizações e pessoas que frequentam as reuniões do Foro de São Paulo (fundado, não por acaso, um ano depois da queda do muro - e eu estava presente na reunião de fundação, no Hotel Danúbio).

Não dando certo a revolução pela insurreição, pelo foquismo ou pela guerra popular prolongada, essa galera chegou à conclusão de que seria preciso fazer a revolução pela corrupção. Bastaria adotar a via eleitoral contra a democracia e depois assaltar o Estado para financiar um esquema de poder de longo prazo. O plano era simples: conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido. O objetivo era claro: chegar ao governo pela via eleitoral, tomar o poder e nunca mais sair do governo. Para isso, entretanto, era necessário, além do tradicional caixa 2, fazer um caixa 3, encarregado de custear ações legais e ilegais, ostensivas e clandestinas, para controlar as instituições, comprar aliados, remover ou neutralizar obstáculos...

Afinal, pensaram eles: as elites não fizeram sempre assim? Para jogar o jogo duro do poder não se pode ter escrúpulos. Foi essa a conclusão de Lula, Dirceu e dos dirigentes petistas que tomaram o mesmo caminho. É claro que, como ninguém é de ferro e como não se pode amarrar a boca do boi que debulha, alguma compensação em vida esses bravos revolucionários mereciam ter. E foi assim que enriqueceram, abriram contas secretas no exterior para guardar os frutos dos seus crimes, adquiriram bens móveis e imóveis em nome próprio ou de terceiros e foram levando a vida numa boa enquanto o paraíso comunista não chegasse.

O ano de 1989 foi decisivo para essa degeneração política e moral da esquerda. Mas o que aconteceu não foi um resultado do somatório de desvios individuais. Não! Eles viram que seria muito difícil conquistar o mundo e assumir o comando de seus próprios países, contrapondo um bloco a outro bloco. O bloco dito comunista se desfez. A União Soviética derreteu em 1991. Ruiu tudo. E agora? Bem, agora - pensaram eles - seria necessário ter uma nova estratégia. E eis que surgiu uma ideologia pervertida, baseada numa fusão escrota de maquiavelismo (realpolitik exacerbada) com gramscismo. Eles, como operadores políticos, conduziriam a realpolitik sem o menor pudor, enquanto que pediriam ajuda aos universitários para dar tratos à bola do gramscismo (e reproduzir mais militantes nas madrassas em que se transformaram as universidades).

No Brasil, porém, parece que erraram no timing. Precisariam de mais uns três ou quatro anos para ter tudo dominado, dos tribunais superiores, passando pelo Congresso, pelo movimento sindical e pelos fundos de pensão, pelos (falsos) movimentos sociais que atuam como correias de transmissão do partido, pela academia colonizada, pelas ONGs que se transformaram em organizações neo-governamentais, por uma blogosfera suja financiada com dinheiro de estatais e por grandes empresas (com destaque para as empreiteiras, atraídas pela promessa de lucros incessantes quase eternos se estivessem aliadas a um sólido projeto de poder de longo prazo). 

Não deu tempo. O plano foi descoberto antes que as instituições fossem completamente degeneradas. E chegamos então a este agosto de 2015, ano em que alguns desses dirigentes vão começar a assistir, de seus camarotes na prisão, o desmoronamento do esquema maléfico que urdiram.

Quem é Augusto de Franco: http://net-hcw.ning....gusto-de-franco

Ciência inspirando arte: LENINE Quede Água




A seca avança em Minas, Rio, São Paulo
O Nordeste é aqui, agora
No tráfego parado onde me enjaulo
Vejo o tempo que evapora
Meu automóvel novo mal se move
Enquanto no duro barro
No chão rachado da represa onde não chove
Surgem carcaças de carro

Os rios voadores da Iléia
Mal desaguam por aqui
E seca pouco a pouco em cada veia
O Aquífero Guarani
Assim do São Francisco a San Francisco
Um quadro aterra a Terra
Por água, por um córrego, um chovisco
Nações entrarão em guerra

Quede água? Quede água?
Quede água? Quede água?
Agora o clima muda tão depressa
Que cada ação é tardia
Que dá paralisia na cabeça
Que é mais do que se previa
Algo que parecia tão distante
Periga, agora tá perto
Flora que verdejava radiante
Desata a virar deserto

O lucro a curto prazo, o corte raso
O agrotóxico, o negócio
A grana a qualquer preço, petro-gaso
Carbo-combustível fóssil
O esgoto de carbono a céu aberto
Na atmosfera, no alto
O rio enterrado e encoberto
Por cimento e por aslfalto

Quede água? Quede água?
Quede água? Quede água?
Quando em razão de toda a ação humana
E de tanta desrazão
A selva não for salva, e se tornar savana
E o mangue, um lixão
Quando minguar o Pantanal e entrar em pane
A Mata Atlântica tão rara
E o mar tomar toda cidade litorânea
E o sertão virar Saara

E todo grande rio virar areia
Sem verão, virar outono
E a água for commoditie alheia
Com seu ônus e seu dono
E a tragédia da seca, da escassez
Cair sobre todos nós
Mas sobretudo sobre os pobres outra vez
Sem terra, teto, nem voz

Quede água? Quede água?
Quede água? Quede água?
Agora é encararmos o destino
E salvarmos o que resta
É aprendermos com o nordestino
Que pra seca se adestra
E termos como guias os indígenas
E determos o desmate
E não agirmos que nem alienígenas
No nosso próprio habitat

Que bem maior que o homem é a Terra
A Terra e seu arredor
Que encerra a vida aqui na Terra, não se encerra
A vida, coisa maior
Que não existe onde não existe água
E que há onde há arte
Que nos alaga e nos alegra quando a mágoa
A alma nos parte

Para criarmos alegria pra viver
O que houver para vivermos
Sem esperanças, mas sem desespero
O futuro que tivermos
Quede água? Quede água?
Quede água? Quede água?
Quede água

Fonte: Vagalume

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Agua Ô do ar da Amazônia - idéia com forte apelo de marketing verde


Há algum tempo respondi uma entrevista do Portal Amazônia sobre essa fabrica de água do ar (Ô), veja abaixo.

Portal da Amazônia - a perda de umidade do ar através de um processo como este prejudicaria o ambiente?

Em termos quantitativos, ou volumétricos, não, já que o volume a ser retirado seria insignificante frente aos fluxos de vapor na atmosfera Amazônica (para entender mais sobre isso leia o relatório "O Futuro Climático da Amazônia"). 

Mas parques industriais suscitam utilização de energia não produzida localmente, o que pode levar (e normalmente leva) a destruição ambiental. As muitas hidrelétricas planejadas para a Amazônia são exemplo deste potencial efeito destrutivo. A Ô promete evitar esse fator complicante através do uso de energias renováveis, principalmente solar fotovoltaica. Mas como se verá abaixo, o investimento proposto não se justifica perante a lógica natural.

Portal da Amazônia - se o empreendimento der certo na Amazônia a iniciativa poderia ser copiada em outros lugares?

Tentar reproduzir com maquinas, que consomem a nobre energia elétrica, processos feitos gratuitamente e abundantemente pela Natureza não me parece uma forma inteligente de interagir com o meio ambiente para obter esse recurso vital (água potável). Além disso, quanto menor a umidade relativa do ar, maior a quantidade de energia necessária na condensação, e menor a quantidade de água extraída. Um clima progressivamente mais árido, como se prevê com a remoção das florestas, inviabilizará completamente este tipo de produção de água a partir do ar continental.

Portal da Amazônia - essa água é realmente adequada para o consumo?

A água da chuva, quando a atmosfera está livre de poluentes (no meio da estação chuvosa na Amazônia por exemplo), tende para a condição de água destilada. Ingerir água destilada produz inúmeros distúrbios na bioquímica do corpo, devido a falta de nutrientes minerais essenciais. Na Natureza, atravessando a floresta, os solos e as camadas geológicas, essa água da chuva passa por elaboradíssimo (e também gratuito) processo de mineralização o que a torna saudável para consumo.

Já quando a atmosfera está contaminada por fumaça, fuligem (na estação seca na Amazônia, por exemplo) e outros componentes tóxicos de poluição urbana, então a água condensada terá os mesmos contaminantes do ar, o que determina a necessidade de caros sistemas de purificação química, que por sua vez aumentam o custo, não garantem qualidade e podem aumentar ainda mais a necessidade de remineralização. E essa ultima, feita sem o concurso das complexíssimas cadeias tróficas dos micro-organismos do solo, também tenderá a ser um arremedo caro do que faz a gratuita e complexa tecnologia da Natureza.

Portal da Amazônia - a poluição do ar influenciaria na qualidade desta água?

Já respondido na questão anterior.

Conclusão:

Não faz sentido montar uma infraestrutura industrial e gastar energia para reproduzir pobre e incompletamente o que a própria Natureza faz abundantemente, de graça e de forma saudável. Se outro empreendedor montasse simples coletores de chuva, e passasse a água coletada por similar tratamento (filtragem e remineralização) teria água idêntica, com zero custo de condensação. Se outro empresario ainda abrisse um poço em solo adequado na mesma região, e passasse a água por simples filtragem, teria água idêntica, com zero custo de condensação e zero custo de remineralização.

Perdoem-me esses empreendedores, que parecem bem intencionados, mas o que vemos nesta iniciativa é o mais puro "vapor de marketing", feito para pegar carona na percepção coletiva de importância dos rios aéreos de vapor para o ciclo hidrológico.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ainda não sabemos de onde veio a Seca de 2014


Antonio Donato Nobre

Vivendo no meio de climatologistas, fiquei surpreso com a certeza transmitida pelo artigo Seca não veio da Amazônia, na revista Época. 

A seca de 2014 não foi prevista por nenhum modelo climático. Depois disso, ao longo do ano, o grupo de previsão climática, que reúne especialistas de varias instituições, absteve-se de emitir previsões sobre a progressão da seca em varias regiões do Brasil. Ao longo de 2014 todos climatologistas que conheço declararam-se pasmos com essa seca fortíssima, e seu silencio no período atesta. Não me parece razoável crer que as primeiras chuvas de fevereiro irrigaram os modelos climáticos com uma capacidade que eles demonstraram não ter até o final de janeiro.

Existem nas observações do clima registros de secas fortes para o Sudeste. O que surpreendeu e assustou em 2014, além da intensidade e duração sem precedentes, foi o virtual desaparecimento da ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul). Essa condição rendeu incapazes os modelos numéricos, até para previsões de curto prazo. Por estas características inusitadas do fenômeno climático, vários colegas cogitam tratar-se já das primeiras manifestações de mudanças climáticas associadas ao aquecimento global.

A publicação do meu relatório (O Futuro Climático da Amazônia), iniciado muito antes, coincidiu com a seca de 2014. Nele é reportada a existência de base científica sólida para suportar a importância da ligação hidro-meteorológica da Amazônia com o Sudeste (Marengo et al. 2004 Journal of Climate; Arraut et al., 2012 J. of Climate; Spracklen et al., 2012 Nature; Makarieva et al., 2014, etc.). Embasada por essa ciência podemos afirmar que a umidade amazônica não chegou em São Paulo em 2014, e não conheço ninguém responsável que disputaria tal fato. Também indisputáveis são as observações feitas “na Amazônia” que conectam o desmatamento com a redução de umidade atmosférica.

A matéria da Época* passa uma imagem não acurada e sem base em artigos publicados, de que o que se passa no Sudeste não teria nada a ver com a Amazônia. Não sabemos ainda como os vários fatores interagiram para produzir a seca, mas mesmo que venham a demonstrar haver havido em 2014 apenas um impedimento meteorológico externo à propagação da umidade amazônica, ainda assim foi a umidade amazônica que não chegou

A relação do suprimento de serviços ambientais da floresta amazônica com a sorte hidrológica de regiões a jusante dos rios aéreos de lá procedentes é cientificamente embasada e auto-evidente. O bom senso sugere todo cuidado com esse recurso.


*Assim expressei para o repórter da Época:
“O fato solido é que a umidade Amazônica -que usualmente alimenta a maior parte das chuvas que caem no sudeste-, durante 2014 e janeiro ultimo não chegou aqui. Sim, a falta da umidade Amazônica é um dos fatores principais que explicam a seca. Porem, ainda não sabemos os números que explicam essa não propagação dessa umidade Amazônica. O que se observou foi uma massa de ar quente e seco que estacionou sobre a região sudeste, e que parece haver impedido tanto a entrada das massas de ar úmido da Amazônia, quanto as mais secas frentes frias que vem do sul do continente.”
  Assim apareceu na matéria:
 "Procurado por ÉPOCA, Nobre endossou que o desmatamento lá é a principal razão para a falta de chuvas cá."

Mencionei o desmatamento na minha afirmação?

Referencias


Arraut, J.M., Nobre, C., Barbosa, H.M.J., Obregon, G., Marengo, J., 2012. Aerial Rivers and Lakes: Looking at Large-Scale Moisture Transport and Its Relation to Amazonia and to Subtropical Rainfall in South America. J. Clim. 25, 543–556

Makarieva A.M., Gorshkov V.G., Sheil D., Nobre A.D., Bunyard P., Li B.-L. (2014)  Why does air passage over forest yield more rain? Examining the coupling between rainfall, pressure, and atmospheric moisture content.
Journal of Hydrometeorology, 15, 411-426.

Marengo, J., Soares, W., Saulo, C., Cima, M., 2004. Climatology of the low-level jet east of the Andes as derived from the NCEP-NCAR reanalyses: Characteristics and temporal variability. J. Clim. 17, 2261–2280.

Spracklen, D.V., Arnold, S.R., Taylor, C.M., 2012. Observations of increased tropical rainfall preceded by air passage over forests. Nature 489, 282–5.
 

domingo, 30 de novembro de 2014

O Futuro Climático da Amazônia, agora disponivel em quatro idiomas.


Portugues: http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/11/Futuro-Climatico-da-Amazonia.pdf

English:   http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/11/The_Future_Climate_of_Amazonia_Report.pdf

Español: http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/11/El_Futuro_Climatico_de_la_Amazonia.pdf

Deutsch : http://www.ccst.inpe.br/wp-content/uploads/2014/11/Das_Zukunftige_Klima_Amazoniens.pdf

Arvore, ser tecnológico, desenhos criativos e intuitivos no facebook:
https://www.facebook.com/arvoresertecnologico?fref=photo&sk=photos

Arvore, ser tecnológico: mesmos desenhos comentados no tumblr:
http://arvoresertecnologico.tumblr.com/

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A transposição do Amazonas


Lauro Eduardo Bacca (artigo para o JSC de 12/11/2014)
A transposição do rio São Francisco, que já sofre com a seca, pretende levar 127 metros cúbicos por segundo de águas do velho Chico para o Nordeste brasileiro. O volume equivale à vazão do rio Itajaí Açu em tempos normais e os dois canais previstos somam uma distância que vai de Blumenau a São Paulo. O projeto é altamente questionável, mereceria artigos à parte, sem contar que o custo da obra já beira a casa dos R$10 bilhões.
Por incrível que pareça, muito mais fácil é a transposição de uma quantidade 1.800 vezes maior de águas da Amazônia a um custo de uns 100 trilhões de reais, possibilitando amplo fornecimento de água para vastas regiões do Centro Oeste, Sul e Sudeste brasileiras, além do Paraguai, partes da Argentina e Uruguai. Isso tudo sem tirar uma gota sequer do rio Amazonas.
Não, caro e preclaro leitor, não estou louco. Essa transposição já existe e é feita de graça pela natureza, coisa que já se sabia algum tempo, mas que agora tem mensuração científica.
O rio Amazonas despeja todos os dias no Oceano 17 trilhões de litros, quase um quinto da soma das águas de todos os rios do mundo. Já a quantidade de água que a imensa floresta lança na atmosfera, sabe-se agora, chega a 20 trilhões de litros/dia, ou seja, a Amazônia joga mais água na atmosfera pela transpiração das árvores do que no oceano Atlântico pelo rio!
Grande parte dessa umidade, levada pelos ventos, bate na Cordilheira dos Andes, dá meia volta e dirige-se para o Sul–Sudeste, formando o já conhecido “rio aéreo”, que possibilita muita chuva nas regiões já mencionadas, viabilizando a agricultura, o agronegócio, os grandes mananciais e grandes hidrelétricas, além do abastecimento de muitas cidades, como o da agora sedenta São Paulo.
Nos últimos 40 anos o Brasil deixou acontecer a destruição total, por corte raso, de 763 mil km² de floresta amazônica, área equivalente a uma Alemanha e França somadas, fora outros 1,25 milhões de km² de floresta que já está degradada. A pastagem ou a soja plantada no mesmo espaço, além de reter bem menos água no solo, evapora apenas um quarto da água que era evaporada pela floresta original, quantia insuficiente para formar o grande “rio aéreo” na direção sul/sudeste.
Ironicamente, enquanto torramos uma fábula de recursos para transpor água do São Francisco para o Nordeste, destruímos uma transposição mil vezes maior que a natureza nos faz de graça a partir da Amazônia, inclusive para as cabeceiras do próprio rio São Francisco!  

Estamos matando o mais saudável dos doadores enquanto usamos um anêmico para doar sangue.

O condomínio gigante


Lauro Eduardo Bacca (artigo para o JSC de 05/11/2014)
Dedicado a Álvaro Correia
O gigantesco condomínio, bem funcional dentro de sua complexidade, desenhado, planejado e acabado para funcionar perfeitamente, com muita área verde, piscinas e playgrounds, tudo na mais perfeita harmonia, depois de tempos com alguns residentes mais antigos, finalmente começou a receber novos ocupantes. 
Muitos dos inquilinos, assim que tomaram posse, iniciaram um inacreditável processo de depredação. Cortinas foram rasgadas, paredes pichadas, janelas partidas, carne assada com fumaça no meio da sala, refeições feitas nos quartos, sobre camas lambuzadas, chuveiros arrancados e vasos sanitários quebrados, sujeira por todos os lados. Era na sacada que muitos iam dormir depois de destruir o ar condicionado, onde a chuva molhava e tornava imprestáveis os colchões ali esquecidos.
A parcela dos ocupantes tidos como mais “civilizados”, entre estarrecidos e sentindo-se impotentes, tentava tocar a vida, cobrando uma atitude da administração, que dizia nada poder fazer, em meio àquele caos. Até o dia em que destruíram as bombas que mandavam água para o alto e todos ficaram sem o precioso líquido. Esse condomínio bem que poderia se chamar Brasil.
Estou pegando pesado demais? Sim, caro e preclaro leitor, mas foi essa a sensação que tive depois de ler uma matéria com o cientista brasileiro Antonio Donato Nobre, primeiro na Folha de São Paulo e depois na íntegra, em "Estamos indo direto para o matadouro" que aqui compartilho, recomendando a leitura [materias referentes ao accessivel relatorio do mesmo autor: O Futuro Climático da Amazônia].
Ocupamos um paraíso. De cara arrebentamos com a cortina da Floresta Atlântica arrancando 92% dela e danificando a maior parte dos 8% que restaram; pichamos grande parte de nossas paisagens mal manejadas e expostas à degradação. Deitamos fogo em tudo, dizimamos a fauna e os recursos naturais. O lixo, a poluição das queimadas, esgotos e agrotóxicos ainda imperam nas nossas salas de estar que são as cidades e os campos. Nossos dejetos ainda cheiram fétidos no que deveriam ser veios de água límpida, os rios e córregos. Para completar, estamos destruindo a Floresta Amazônica, a bomba d’água que garante que São Paulo e tantos outros lugares não vire um deserto, num momento em que, como diz o cientista, o desmatamento não deveria apenas estar totalmente cessado, mas revertido até com um esforço de guerra de reflorestamentos e recuperações de matas nativas.
O assunto é chato, eu sei, mas a realidade está aí, para quem quiser conferir, se conscientizar e cobrar da síndica, primeiro passo para reverter a degradação do nosso condomínio Brasil.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Entrevista dada, Revista Época


Por ocasiao do anuncio publico do relatorio "O Futuro Climatico da Amazonia" recebi muitas demandas de entrevistas. Para ajudar os meios a permanecerem fieis às minhas respostas, passo a publicar neste blog as entrevistas concedidas.


Época- Qual é a contribuição da Amazônia para as chuvas do Sul, Sudeste e Centro-oeste?

Contribuição total. O aporte liquido (no sentido de saldo) de vapor a estas regioes, que podemos chamar da bacia do Prata - o que inclui além do Brasil, Bolivia, Paraguai, parte da Argentina- se dá principalmente nos meses de verão (de novembro a março). E é justamente neste periodo que chegam os fluxos dos chamados rios aereos de vapor procedentes da Amazônia. As frentes frias que procedem do sul do continente e chegam nestas regioes em outras épocas do ano são massas de ar frio que transportam pouquíssima umidade.

Época- Qual é a contribuição da floresta para as chuvas que caem na própria Amazônia?

Contribuiçao total. As florestas transpiram grandes volumes de vapor d'água - o que mantem umido o ar que adentra o continente por milhares de kilometros-; elas tambem emitem "aromas" que sao responsaveis pela formaçao de uma poeira finissima com afinidade pela agua, as "sementes de condensação"- sem as quais nao se formam nuvens nem chuvas-; por fim, com essa imensa evaporação (um fluxo maior que o do Rio Amazonas) - e a correspondente poderosa condensação nas nuvens-, a pressão atmosférica na Amazônia cai, o que acelera e "suga" os ventos aliseos que vem do oceano atlântico carregados de umidade - esse efeito é similar a de uma "bomba" de agua, sem a qual os ventos úmidos do oceano, fonte de toda agua, nao adentrariam a bacia Amazônica-. Tire a floresta e os tres fatores determinantes para as chuvas desaparecem, o que implica redução massiva das chuvas.
 
Época- Temos evidência de que a floresta já perdeu parte da sua capacidade de produzir umidade para a Amazônia / outras regiões? Há como medir isso? O que a ciência indica até o momento?

Nao é a floresta, no seu estado pristino, que perdeu capacidade de fomentar a umidade atmosferica, e com isso favorecer chuvas benignas. É sua destruição, sua ausencia, e mesmo sua incineraçao, gerando fumaça e fuligem, que sao responsáveis por destroçar o sistema climático amigo que existia antes, substituindo-o por um dramaticamente inóspito novo clima.

Imagens de satelite mostram a destruiçao bruta e a degradaçao das florestas, a cena do crime, alem de mostrar também a geração e o deslocamento das nuvens de fumaça e fuligem que matam as chuvas; Torres de observação e outros instrumentos de superficie coletam em tempo real as mudanças no clima, as alteraçoes na concentração de vapor de agua, os efeitos da fumaça e fuligem;  modelos atmosféricos e modelos de vegetação que simulam no computador as condicoes reais e sao aferidos por observacoes tanto de satélites quanto de superfície, mostram a evoluçao do cenario de alteração climática, uma evolução nada boa; e por fim, nova analise teórica, baseada em leis fisicas, permitem antecipar o que deve acontecer nos cenarios futuros. A ciência indica até o momento que o clima já está mudando na Amazônia, mais nas zonas mais desmatadas, mas não somente.

Época-  Podemos dizer que a estiagem que atinge o Sudeste desde 2013 é uma consequência da redução do fluxo da umidade da Amazônia, ou ela tem a ver com outros fatores?

Podemos dizer que no ultimo verao nao chegaram aqui os fluxos de umidade que a Amazonia exporta. Quanto desta falta teria a ver com o enfraquecimento dos rios aereos de vapor e quanto a ver com o efeito de bloqueio atmosferico decorrente de mudanças climaticas ainda está sendo estudado. Ao mesmo tempo que as observações do clima na Amazônia não deixam duvida de que o desmatamento na Amazônia esta prejudicando o clima amigo por lá - as cabeceiras dos rios aéreos de vapor-, o que deve ser um alerta severo para quem vive a "jusante" dos ventos portadores de umidade deste rio aereo, uma massa de ar quente, seco e com alta pressao tem estacionado sobre a região Sudeste, o que tem dificultado a penetraçao de umidade oriunda da Amazônia. O que podemos falar com convicção porem é que houvessem "florestas nativas" no Sudeste, tal fenômeno deletério não ocorreria nestas proporções, ou não permaneceria estacionado por tanto tempo, porque as matas resfriam a superficie, e sao fontes poderosas de vapor, dois fatores que conduzem a chuvas.

Época- Se a Amazônia, em algum momento, perde a capacidade de gerar umidade, quem vai sofrer primeiro? A própria Amazônia, o Centro-oeste? Quais seriam as primeiras consequências, o que veríamos primeiro?

Como ressalto no relatório, nao é mais apropriado usar o tempo futuro no verbo relativo a sua pergunta. Para saber das primeiras consequências basta assistir o noticiário. Já estamos testemunhando a perda dos serviços ao clima devido a destruição de floresta, a cada ano os agricultores no Mato Grosso percebem as chuvas chegando mais tarde, tem que atrasar o plantio de suas lavouras. Hoje a ONS, a operadora do sistema elétrico nacional, avisou que vai faltar energia eletrica por falta de agua nos reservatorios das usinas hidrelétricas. O racionamento de agua já afeta mtas cidades no Pais, fora da tradicional zona da seca no Nordeste. O que mais precisamos para despertar para a realidade?

Época- O desmatamento vem acontecendo desde a década de 1970 de forma progressiva, embora o ritmo tenha reduzido. É de se esperar que a redução da capacidade da floresta ocorra de forma progressiva, ou pode ser uma mudança brusca, de um ano para outro?

Para o clima interessa somente o saldo devedor; as taxas anuais maiores ou menores sao cocegas nas bordas do sistema se considerado o principal da divida (somente de corte raso, uma area equivalente a tres vezes a área do Estado de SP). E é essa divida enorme que agora cobra a fatura, e demanda pagamento imediato. Como digo no relatorio, o desmatamento sem limite encontrou no clima um juiz que sabe muito bem contar arvores (decepadas), nao esquece nem perdoa. O sistema climático está por um lado sentindo a ausencia das arvores de forma progressiva, como é o caso da progressiva extensão da duração da estação seca na Amazonia; mas pode gerar surpresas decorrente da acumulação sinergisticas de vários fatores, como parece ser a situação atual do sudeste.

Época- Há um limite? Quanto que a floresta tem que perder de cobertura florestal ou quanto dela pode ser degradado até que essa função de gerar umidade seja comprometida?

O fato do sistema climático estar mostrando claros sintomas de desarranjo já deve indicar que chegamos no limite. Cinco anos atrás, em entrevista para o Jornal Valor, respondi pergunta similar, alertando já naquela epoca que estávamos mto próximos do limite, a partir do qual veríamos mais e mais desastres climáticos. Sem ter uma bola de cristal, meu palpite de cinco a seis anos como um prazo curto para aparecerem os sintomas mais fortes da destruição que estávamos infligindo ao berço esplêndido, parece que acertou. Agora, a resposta sobre quanto tempo ainda temos é um categórico: nenhum! Acabou-se o prazo para complacencia e procrastrinação em relacao ao desmatamento. Eu nao saberia dizer se já passamos do ponto de nao retorno, a partir do qual deceremos forçosamente no abismo climático, mas quero crer que temos ainda a oportunidade de mudar de curso e evitar o pior. Por isso proponho um "esforço de guerra" no esclarecimento da sociedade, primeiro, e então no combate vigoroso ao desmatamento. Mas somente zerar o desmatamento para ontem já não será suficiente. Se queremos ter alguma chance de sucesso, precisamos "replantar e restaurar" florestas por todo o Pais. Essa a melhor apólice de seguro que podemos comprar.

Entrevista dada, Revista Veja

Por ocasiao do anuncio publico do relatorio "O Futuro Climatico da Amazonia" recebi muitas demandas de entrevistas. Para ajudar os meios a permanecerem fieis às minhas respostas, passo a publicar neste blog as entrevistas concedidas.



Veja- No relatório, o senhor diz: “Uma situação extraordinária requer medidas extraordinárias. Sempre é tempo de rever leis para adequá-las às demandas da realidade e da sociedade. Somente multar desmatadores, que mais adiante serão anistiados pela burocracia ou pelo Congresso, é receita de fracasso.” Quais mudanças o senhor proporia à legislação para um melhor combate ao desmatamento? Pelo relatório, pode-se deduzir que o fim à anistia de desmatadores. Há algo mais?


Proporia os mesmos avanços e aperfeiçoamentos que a SBPC e a Academia Brasileira de Ciencia propuseram em 2011 durante as discussoes do Codigo Florestal no Congresso (veja o livro publicado aqui). Sim, muito mais mudanças. Para começar a lei florestal precisa ser incontroversa, facil de entender e aplicar, e, fundamentada na melhor ciencia. Uma lei sabia, que conte com fundamentos logicos accessiveis e que seja ao mesmo tempo justa para todos, e responsavel com o futuro, ainda precisa ser construida no Brasil. A oportunidade que tivemos 3 anos atras foi perdida em um jogo de interesses mesquinhos e falta de visao.

Veja- O governo brasileiro diz ter atrasado os números sobre o desmatamento da floresta porque vai começar a usar um sistema de satélite capaz de captar imagens em terrenos de até 6 hectares – antes eram 25. Dados da ong Imazon, no entanto, mostram que o desmatamento cresceu na região. Esse aumento, apesar da tendência clara de diminuição do desmatamento nas últimas décadas, é preocupante? Com novas tecnologias de monitoramento, como imagens de satélite mais precisas, e conscientização da população, como o senhor sugere no relatório, há como se estimar quando conseguiríamos chegar do “desmatamento zero”?

O aumento é consequencia obvia e prevista da ampla e imoral anistia concedida para desmatadores pelo novo Codigo Florestal. Como frisei no relatorio, o desmatamento anual é grave e precisa ser zerado para ontem -nao mais procrastinar em relacao a isso é obrigaçao de todos, porque  o clima está em jogo-. A continuar a tendencia de crescimento nestes ultimos anos, mto breve estaremos de volta batendo records de destruiçao anual. Mas temos em nosso colo um problema ainda mais grave: precisamos reconsiderar o passivo do desmatamento, a enorme area que foi raspada na Amazonia nos ultimos 40 anos. Sao 3 Estados de Sao Paulo, ou 184 milhoes de campos de futebol, quase um por brasileiro. É essa massiva destruiçao na grande usina de serviços ambientais Amazonica que sente o clima. E isso sem considerar area ainda maior de florestas degradadas, cujo papel para o clima tambem fica muito comprometido.

Veja-  Na Cúpula do Clima de Nova York, que aconteceu em setembro, o governo brasileiro deixou de assinar um acordo mundial de desmatamento zero. Entre os motivos apresentados por representantes oficiais, está o fato de o Brasil não ter sido chamado para a elaboração do documento (apesar de a ONU afirmar que procurou o governo, mas não recebeu nenhuma resposta), e também a postura brasileira de distinguir o desmatamento legal do ilegal. O que o senhor acha sobre isso? Na sua opinião, o Brasil deveria ter assinado o acordo? O senhor acha que a distinção entre o desmatamento legal e ilegal pode prejudicar ainda mais a Floresta Amazônica?

Quero crer que a posiçao oficial do Brasil desconhece os argumentos da ciencia, caso contrario teria liderado com destaque um movimento pelo desmatamento zero em curtissimo prazo. O que se chama de desmatamento "legal" é aquele permitido por uma lei feita ao arrepio da vontade da sociedade - expressa massivamente em pesquisas de opiniao-, por um congresso cuja maior parte dos parlamentares sao proprietarios de terra. Dada a condicao de evidente degradaçao climatica resultante do desmatamento, existe um paralelo proximo entre o clamor dos proprietarios de terra de hoje, pleiteando seu "direito" de continuar desmatando, com aquele expresso por proprietarios de terras em meados do seculo 19, que se opuseram ao movimento para acabar com a escravidao, alegando que possuir escravos era plenamente "legal", e que sem a mao-de-obra escrava sofreria a economia, porque nao teriam como colher o café ou cortar a cana.  O Brasil se livrou da degradante escravidão, por uma nova lei feita para atender os reclamos da sociedade e da civilidade. Nem por isso nossa agricultura entrou em falencia. Agora precisamos nos livrar do ilogico, imoral e extremamente danoso desmatamento, e para tanto precisamos de uma nova lei que nos recoloque no caminho da civilidade ambiental e sustentabilidade climatica. Se agirmos nesta direção a agricultura do futuro agradecerá, porque teremos com isso salvo o principal insumo do setor primario: chuvas fartas, reguladas e benignas.