segunda-feira, 27 de maio de 2013

É inevitável o suicídio coletivo?

27/05/2013 - 04h00

Em 10 mil anos de história, é a primeira vez que a humanidade tem o poder de cometer suicídio coletivo. Era essa a tese central de Emmanuel Mounier em "O Grande Medo do Século 20".
Publicado em 1947, o livro se referia à ameaça de uma catástrofe atômica, angústia constante na fase aguda da Guerra Fria entre EUA e URSS. Passaram-se 66 anos e conseguimos evitar o pior.
Na época de Mounier não se sabia que os homens poderiam liquidar o mundo não só com bombas, mas com o aumento desenfreado da produção econômica e do abuso dos combustíveis fósseis. Quinze dias atrás, ultrapassamos o sinal amarelo no rumo da destruição. A atmosfera registrou 400 partículas de dióxido de carbono por um milhão.

É preciso recuar 4,5 milhões de anos para encontrar concentração comparável. O clima era então muito mais quente, quatro ou cinco graus a mais em média. No ritmo atual, não existe nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento global a dois graus como decidido em Copenhague. Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com 800 partículas e mudança de clima de dimensões que ameaçam a sobrevivência da civilização tal como a conhecemos.

A violação da marca simbólica de 400 por milhão não provocou nenhuma declaração ou alerta de chefes de Estado. Um dia depois, os jornais esqueceram o assunto e voltou-se ao dia a dia como se nada tivesse acontecido. Como explicar tal indiferença diante da morte anunciada que espera o mundo dos homens?

O silêncio é inexplicável numa sociedade na qual a ciência substituiu a religião como crença unificadora. Ora, a ciência climática não permite dúvidas: de 12 mil estudos científicos sobre o tema em 20 anos, 98,4% confirmam as previsões!

Há muitas explicações para a inércia. Uma delas tem a ver com a natureza da ameaça. Crises como a dos mísseis de Cuba em 1962 precisam ser resolvidas em horas ou dias. Se o presidente Kennedy tivesse hesitado, em poucos dias seria tarde demais. Já o desastre ambiental é como um câncer de expansão lenta: sabe-se que ele está lá, que se nada se fizer, a morte é inevitável. Mas não se sabe o dia nem a hora. Isto é, uma catástrofe em futuro indeterminado carece da força para precipitar soluções difíceis.

O provável por isso é que só haverá ação decisiva para evitar o colapso definitivo depois de uma sucessão de calamidades espantosas. Quando isso suceder, muitas das consequências já se terão tornado irreversíveis como o derretimento das geleiras, a elevação do nível dos oceanos, a inundação de cidades, a desertificação, a extinção de milhares de espécies.

Toynbee lembrava num dos seus últimos livros que nisso os homens deveriam invejar insetos como as formigas, condicionados do ponto de vista psicossomático a agir coletivamente por instinto de sobrevivência. Estudo recente comprovou que os peixes já estão migrando para o norte em busca de águas mais frias. Enquanto isso, os seres humanos se deslumbram com o avanço em produzir e queimar mais gás a partir do xisto...

A razão talvez esteja com o poeta T.S. Eliot: o mundo acaba não com um estrondo, mas com um gemido.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Porque o mundo enfrenta o caos quanto ao clima

5/05/2013 - 12h00
Martin Wolf

Na primeira semana de maio, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera supostamente ultrapassou as 400 partes por milhão pela primeira vez em 4,5 milhões de anos. E ela vai continuar crescendo à razão de duas partes por milhão a cada ano.

Se o rumo atual for mantido, terá chegado a 800 partes por milhão no final do século. Assim, toda a discussão sobre mitigar os riscos de uma mudança catastrófica no clima provou ser apenas retórica vazia.

A humanidade reagiu com um bocejo coletivo e decidiu permitir que o risco cresça. O professor Sir Brian Hoskins, do Imperial College, Londres, aponta que da última vez que tivemos concentração tão alta, "a média de temperatura mundial era três ou quatro graus mais alta que hoje. Não havia camada de gelo permanente na Groenlândia, o nível do mar era muito mais alto e o mundo era um lugar muito diferente, ainda que nem todas essas diferenças se relacionassem diretamente aos níveis de CO2".
A ressalva que ele faz é justa. Mesmo assim, o efeito estufa é ciência básica: explica por que o clima da Terra é mais agradável que o da Lua. Há efeitos de retroalimentação positivos, via, por exemplo, o volume de vapor de água presente na atmosfera. Para resumir, a humanidade está conduzindo uma experiência climática imensa, descontrolada e quase certamente irreversível. Além disso, se julgarmos com base na ciência básica e nas opiniões da vasta maioria dos cientistas qualificados, o risco de mudança calamitosa é grande.

O que torna a inação ainda mais notável é que temos ouvido muita histeria sobre as horríveis consequências que acumular dívida pública excessiva teria para os nossos filhos e netos. Mas tudo que está sendo legado são compromissos financeiros de certas pessoas a certas outras pessoas. Se o pior acontecer, teremos um calote. Algumas pessoas sofrerão. A vida seguirá adiante.
Já legar um planeta em caos climático é preocupação muito maior. Não existe outro lugar ao qual as pessoas possam fugir, e nem maneiras de devolver à situação original o sistema climático do planeta. Se a prudência deve ditar nossas visões sobre as finanças públicas, decerto também deveríamos permitir que as ditasse no caso de algo irreversível e muito mais custoso.
Por que estamos nos comportando dessa forma, então?

O primeiro e mais profundo motivo é que, da mesma forma como a civilização da antiga Roma foi construída sobre os escravos, a nossa foi construída sobre os combustíveis fósseis. O que aconteceu no começo do século 19 não foi uma "revolução industrial", mas uma "revolução da energia". Colocar carbono na atmosfera é o que fazemos.

Como argumentei em coluna anterior, o estilo de vida dos países de alta renda, com seu uso intensivo de energia, agora se expandiu ao resto do mundo. A convergência econômica entre os países emergentes e os de alta renda está ampliando a demanda por energia mais rápido que os ganhos de eficiência energética a estão reduzindo. Não só as emissões totais de CO2 estão subindo como as emissões per capita também estão em alta.  Essa última tendência é propelida em larga medida pela dependência da China quanto ao carvão como forma de gerar eletricidade.

Um segundo motivo é a oposição a quaisquer intervenções no livre mercado. Parte disso, sem dúvida, se relaciona a interesses econômicos estreitos. Mas não subestime o poder das ideias. Admitir que uma economia livre gera um grande custo externo mundial é admitir que a regulamentação governamental em larga escala tantas vezes proposta pelos odiados ambientalistas tem justificativa. Para muitos libertários ou liberais clássicos, a ideia em si é insuportável. Para eles, é muito mais fácil negar as provas científicas.

Um sintoma disso é a busca de pretextos. Aponta-se, por exemplo, que a temperatura mundial média não vem subindo recentemente, ainda que seja muito mais alta do que há um século. Mas já aconteceram períodos de queda de temperatura em meio a uma tendência de alta.
Um terceiro motivo pode ser a pressão de responder a crises imediatas, que consumiu quase toda a atenção das autoridades econômicas dos países de alta renda desde 2007.

Um quarto é a tocante confiança em que, caso o pior aconteça, a engenhosidade humana encontrará maneiras inteligentes de administrar os piores resultados da mudança do clima.

Um quinto é a complexidade de chegar a acordos mundiais efetivos e implementáveis sobre o controle de emissões, entre tantos países. Não surpreende que os acordos que terminam por ser obtidos ofereçam mais a aparência de ação que a realidade.

Um sexto é a indiferença quanto aos interesses de pessoas que nascerão em um futuro relativamente distante. Como diz a velha piada, "por que me incomodar com as futuras gerações? Elas não fizeram coisa alguma por mim".

Um motivo final (e correlato) é a necessidade de encontrar um equilíbrio justo entre os países pobres e os ricos e entre aqueles que emitiram a maior parte dos gases do efeito estufa no passado e aqueles que os emitirão no futuro.

Quanto mais refletimos sobre o desafio, mais impossível é vislumbrar medidas efetivas. Em lugar disso, observaremos a alta na concentração mundial dos gases mundiais do efeito estufa.
Se ela conduzir a um desastre, será tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito.

De que maneira mudar de rumo, portanto? Minha posição, cada vez mais convicta, é que não faz sentido apresentar exigências morais. As pessoas não farão algo dessa escala por se preocuparem com os outros, mesmo os seus descendentes remotos. Na realidade, elas se preocupam demais consigo mesmas para que o façam.

A maioria das pessoas acredita, hoje, que uma economia com baixa emissão de carbono representaria privações universais. E jamais aceitarão tal situação. Isso vale tanto para as pessoas dos países ricos, que desejam manter o que já tem, quanto para o resto do mundo, que deseja desfrutar daquilo que as pessoas dos países ricos desfrutam.

Uma condição necessária, ainda que não suficiente, portanto, seria uma visão politicamente vendável de uma economia de baixas emissões de carbono e ainda assim próspera. Não é o que as pessoas estão vendo agora. Recursos substanciais precisam ser investidos em tecnologias capazes de produzir um futuro como esse de modo confiável.

Mas isso não é o bastante. Se uma oportunidade como essa parece mais crível, é preciso desenvolver instituições que possam concretizá-la.

No momento, nem as condições tecnológicas e nem as institucionais existem. Em sua ausência, não há vontade política para fazer qualquer coisa de concreto sobre o processo que comanda a nossa experiência climática. Sim, muito se fala e muito se lamenta. Mas, como seria de prever, não existe ação efetiva. Caso desejemos que isso mude, precisamos começar oferecendo um futuro muito melhor à humanidade. O medo de um horror distante não basta.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Os céticos do clima já ganharam

2/05/2013 - 14h35
Martin Wolf

A humanidade decidiu bocejar e deixar que os perigos reais e imediatos das mudanças climáticas se acumulem. Foi esse o argumento que apresentei em minha coluna da semana passada. Nada que apareceu nas respostas à coluna enfraqueceu minha conclusão. Quando muito, as reações a reforçaram.

Porque o mundo enfrenta o caos quanto ao clima
 
A julgar pela inação do mundo, os céticos climáticos já ganharam. Esse fato torna ainda mais surpreendente o sentimento que eles manifestam de terem queixas não atendidas. Para o restante de nós, a interrogação que fica é se ainda há algo que possa ser feito, e, se sim, o que é.

Ao analisar esta questão, uma pessoa racional certamente deve reconhecer o grau de consenso existente entre os cientistas climáticos quanto à hipótese do aquecimento provocado pelo homem.
Uma análise dos resumos de 11.944 artigos científicos revistos por pares, publicados entre 1991 e 2011 e redigidos por 29.083 autores, conclui que 98,4% dos autores que adotaram uma posição confirmaram o aquecimento global provocado pelo homem (antropogênico), 1,2% o rejeitaram e 0,4% se disseram incertos. Análises alternativas dos dados renderam proporções semelhantes.
Uma resposta possível consiste em insistir que todos esses cientistas se equivocaram. Isso é concebível, é claro. Cientistas já se equivocaram no passado. Mas rejeitar este ramo da ciência unicamente porque suas conclusões são tão incômodas é irracional, embora seja compreensível.
Isto nos conduz a uma segunda linha de ataque: insistir que esses cientistas foram corrompidos pelo dinheiro e a fama. A este argumento eu respondo: será mesmo? É plausível que uma geração inteira de cientistas tenha inventado e defendido um logro evidente para obter ganhos materiais (modestos), ciente de que a fraude será descoberta?

É mais plausível que os cientistas que rejeitam a visão mais comum o façam por justamente esses motivos, já que interesses poderosos se opõem ao consenso climático, e os acadêmicos do lado deles (os céticos) do debate são em número muito menor.

Infelizmente, por mais racional possa ser buscar reduzir o risco de resultados catastróficos, não é isso o que está acontecendo agora, nem parece provável que aconteça no futuro previsível.
Os dados sobre a queima de combustíveis fósseis desde meados do século 18 indicam um aumento regular nas emissões anuais de dióxido de carbono. É verdade que esses dados apontam para uma desaceleração no aumento das emissões anuais nas décadas de 1980 e 1990. Mas essa desaceleração foi invertida na década de 2000, quando a queima de carvão pela China aumentou (ver gráfico). Hoje, 30% do CO2 presente na atmosfera é diretamente devido à humanidade.

O que está por trás desse crescimento recente nas emissões está muito claro: o crescimento econômico de emparelhamento. A China foi responsável por 24% das emissões globais totais em 2009, contra 17% dos Estados Unidos e 8% da zona do euro. Mas cada chinês emite apenas um terço do volume emitido por um americano e menos de 4/5 do que é emitido por cada residente da zona do euro.

A China é uma economia emergente relativamente perdulária, em termos de suas emissões por unidade de produção. Mesmo assim, ela emite menos per capita que os países de alta renda, porque sua população ainda é relativamente pobre. Seus líderes consideram, justificadamente, que não existe razão moral para aceitarem um teto de emissões para cada indivíduo chinês que seja muito mais baixo que o nível ao qual os americanos consideram que têm direito.

À medida que os países emergentes se desenvolvem, as emissões per capita vão tender a subir em direção aos níveis presentes nos países de alta renda, com isso elevando a média global. É por essa razão que as emissões globais per capita subiram 16% entre 2000 e 2009, período marcado por crescimento acelerado nas economias emergentes.

Portanto, esqueça o discurso: não apenas os estoques de CO2 na atmosfera, mas até mesmo os fluxos de CO2 estão piorando. Os céticos convencidos de que o melhor a fazer é não fazer nada podem parar de reclamar: eles já ganharam.

E como ficamos nós, os outros? As chances de que a humanidade alcance a redução de emissões necessária para manter as concentrações de CO2 abaixo de 450 partes por milhão, com isso reduzindo em muito os riscos de uma elevação superior a 2ºC na temperatura global, são de quase zero. A redução de 25%-40% nas emissões dos países de alta renda até 2020, que seria necessária para conduzir o mundo a esse caminho, não vai acontecer.

Mas isso não quer dizer, de maneira alguma, que a inação deva continuar. A não ser que se concretize o cenário mais apocalíptico, a humanidade ainda pode reduzir as emissões e comprar tempo para sua sobrevivência. O que fazer, então, nesta situação tenebrosa? Seguem oito possibilidades.

Primeira: implementar impostos de carbono. Cobrar impostos sobre coisas negativas é sempre um bom começo. No contexto atual, as emissões de CO2 constituem uma coisa negativa.
Impostos são a maneira mais simples de deslocar incentivos. Como a receita tributária beneficiaria cada governo, ela poderia ser utilizada de modo pontual para reduzir outros impostos --sobre o emprego, por exemplo. As complexas questões de distribuição global poderiam ser ignoradas. Seria melhor se fosse possível os governos se comprometerem com uma tabela tributária crescente de longo prazo, proporcionando a investidores algum grau de previsibilidade do custo do carbono.

Segunda: optar pela energia nuclear. É graças a ela que a França é uma economia que gera tão pouco carbono. É um modelo ao qual outros países deveriam aderir, e não do qual deveriam fugir.

Terceira: impor padrões realmente rígidos de emissões a automóveis, eletrodomésticos e outros tipos de máquinas. A inovação cresceria em resposta a um misto de padrões de preços e regulamentação, como já aconteceu tantas vezes no passado. Se não nos atrevermos a perguntar, não saberemos do que as empresas são capazes em termos de inovação.

Quarta possibilidade: criar um regime global seguro de comércio de combustíveis de carbono mais baixo. Essa seria uma maneira de persuadir a China a afastar-se do consumo do carvão.
Quinta: desenvolver maneiras de financiar a transferência das melhores tecnologias possível para a criação e, ainda mais importante, a economia de energia em todo o planeta.

Sexta: deixar que os governos invistam em pesquisas e inovações em estágio inicial, adotando um misto de financiamento de pesquisas universitárias e apoio a parcerias público-privadas.

Sétima: investir na adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Este ponto certamente terá que ser foco de assistência ao desenvolvimento no futuro. Essa adaptação pode incluir deslocamentos populacionais em grande escala.

Finalmente: estudar a geoengenharia --a manipulação em grande escala do planeta para reverter as mudanças climáticas--, por mais tenebrosa essa ideia possa ser.

Nada disso será o suficiente para eliminar os riscos de mudanças climáticas gravemente adversas. Mas parece ser o melhor que podemos fazer agora, em vista das pressões econômicas.
A tentativa de afastar nossas escolhas daquelas que agora estão alimentando o crescimento constante das emissões fracassou. E vai continuar a fracassar, por enquanto. As razões disso são profundamente enraizadas. É provável que isso só mude diante da ameaça de mais desastres iminentes, e, até isso acontecer, é muito possível que já seja tarde demais. Trata-se de uma verdade deprimente, e é muito possível que seja um fracasso que condene a todos nós.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O "soft" golpe de maio

JOSÉ ELI DA VEIGA
Se quase nada pode esperar dos evangélicos, qual será a base de apoio dessa Rede Sustentabilidade, que quer reapresentar Marina Silva?

É falso que o eleitorado de Marina Silva seja muito evangélico. Menos de 15% de seus quase 20 milhões de votos no primeiro turno de 2010 foram de evangélicos.

Tão somente um décimo do conjunto do eleitorado evangélico optou por Marina, enquanto mais de um terço votou em Dilma, quase outro terço em Serra e um sétimo invalidou o voto. Marina teve mais apoio nas minorias ateia e espírita do que em qualquer das outras cinco divisões por crença.

Isso só surpreende quem ignora que o grosso do voto evangélico é orientado por lideranças das mais pragmáticas. Sempre de olho em boquinhas no governo seguinte, bispos e pastores mostram-se tarimbados pelegos ao negociar com os favoritos ao segundo turno.

Em 2010, os calculistas Serra e Dilma violentaram suas próprias convicções sobre causas libertárias e igualitárias para barganhar votos evangélicos. Nada houve de fortuito, portanto, no fato de a atual base governista ter feito o diabo para viabilizar o controle evangélico da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, pois o Ministério da Pesca é merreca como retribuição ao forte apoio desse nicho com 22% do eleitorado total.

Se quase nada pode esperar dos evangélicos, qual será, então, a base de apoio dessa Rede Sustentabilidade, partido político em formação que quer reapresentar Marina em 2014? Difícil saber, pois é novidade bem similar a tendências emergentes do tipo Partido del Futuro, na Espanha, ou Movimento 5 Stelle, na Itália, que refletem, de forma ainda muito confusa, o inevitável esgotamento da social-democracia, bem sucedido fenômeno do século 20 no qual se abrigam Dilma, Aécio e Campos.

Essa preponderância do projeto social-democrata se justifica pela proeza histórica que realizou nas nações que mais avançaram. Tão intensa foi a expansão da capacidade produtiva decorrente da simbiose entre movimentos trabalhistas e projetos políticos semelhantes aos do PT, PSB e PSDB, que boa parte dos seres humanos passou do reino da necessidade ao da afluência, com educação, cultura, opções de vida e escolhas antes inimagináveis. O Estado de bem-estar social foi a grande obra da social-democracia que não chegou a beneficiar a maioria dos que vivem no Sul.

Mas agora há dois sérios obstáculos à continuidade desse esquema. Estão obsoletos os arranjos que garantiram recordes de aumento da produtividade, particularmente durante o quarto de século 1948-1973.

Além disso, tão retumbante sucesso passou a solapar os próprios fundamentos biogeofísicos da prosperidade, o que traz muitas dúvidas sobre o futuro do desenvolvimento humano. Além de exigir muita governança global, o choque entre o agora fugaz crescimento econômico e a obrigação de maneirar seus impactos sobre a biosfera demanda inédita simbiose entre movimentos sociais e projetos políticos.

Daí ser reacionária, além de antidemocrática, qualquer atitude que dificulte o nascimento daquilo que poderá ser equivalente neste século ao que foi a social-democracia no século passado. Como conspurcar a memória dos 45 anos das gloriosas jornadas de maio de 1968 com a sinistra tentativa de silenciar a voz da Rede mediante expediente casuístico que, se adotado, passará à história do Brasil como o "soft" golpe de maio.

JOSÉ ELI DA VEIGA, 65, é professor titular da USP. Site: www.zeeli.pro.br


  http://www.zeeli.pro.br