sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Criar política ambiental integrada é desafio do governo Dilma, dizem analistas

DA BBC BRASIL:

O grande desafio do próximo governo no setor ambiental é criar uma política
integrada, que possa abranger diversas áreas da gestão da presidente eleita
Dilma Rousseff, na opinião de especialistas em meio ambiente, economia e
relações internacionais.

Eles acreditam que a presidente eleita tem de aproveitar que chegou à mesa
da área ambiental com mais fichas que outros jogadores --como Estados
Unidos, China e União Europeia--, principalmente pelo fato de o Brasil ter
conseguido reduzir o desmatamento e ter um crescimento menos dependente de
combustíveis fósseis, por exemplo.

Os especialistas, no entanto, alertam para o risco de o país deixar passar
essa boa rodada e não avançar para o grupo de nações que "se deram conta que
questões ambientais não são um estorvo e que sustentabilidade não é apenas
um termo bonito para se colocar em anúncios".

A descrição é do professor do Instituto de Biologia da Unicamp, Thomas
Lewinsohn, para quem a prioridade zero do novo governo deveria ser integrar
efetivamente todas as suas ações ambientais e criar uma política que esteja
presente em todo o planejamento.

Para ele, entrariam nessa política não apenas os ministérios do Meio
Ambiente e da Agricultura, mas também outros setores como Ciência e
Tecnologia, Minas e Energia e Desenvolvimento.

"Esse é um grande desafio porque isso não ocorreu nos dois governos de Lula,
onde o que havia eram posturas antagônicas dentro da mesma gestão", afirma
Lewinsohn, que também é presidente da Associação Brasileira de Ciência
Ecológica e Conservação.

Para o professor da Unicamp, é preciso superar essas divisões. "Se não, fica
como ocorre hoje, com um lado propondo e o outro bloqueando."

"TRUNFO"

Para o professor da Faculdade de Economia da USP e coordenador do Nesa
(Núcleo de Economia Socioambiental), Ricardo Abramovay, o Brasil tem um
grande trunfo nas mãos.

"Estamos em uma posição privilegiada se compararmos com a China, União
Europeia, e Estados Unidos, porque não dependemos tanto dos combustíveis
fósseis", diz.

Segundo o professor, isso significa que as mudanças climáticas não
representam um fator de estrangulamento no desenvolvimento do país.

Abramovay afirma que se a China, por exemplo, tivesse de reduzir suas
emissões de gases que provocam o efeito estufa, o impacto seria muito maior
do que se o Brasil precisasse fazer o mesmo.

No entanto, o professor lembra que a principal questão é saber aproveitar
essa vantagem. Para ele, o país vem explorando de modo pouco inteligente seu
potencial.

"O uso sustentável da biodiversidade nunca esteve na pauta do governo, não
se incentivou a criação de cadeias produtivas, não se discute para valer o
desmatamento zero."

IMPACTOS FUTUROS

A representante do Pnuma (agência da ONU para o meio ambiente) no Brasil,
Cristina Montenegro, lembra ainda outro fator que coloca o Brasil em uma
posição mais favorável: a preparação do governo para a COP-15, em
Copenhague, que ajudou a esclarecer as áreas ambientais prioritárias para o
país.

"Mas se os problemas são bem conhecidos, o ponto-chave é resolvê-los de
maneira integrada e com estratégias sólidas."

Ela cita como exemplo a construção de uma nova hidrelétrica: "É preciso
antecipar os impactos futuros das mudanças climáticas nesse local. Analisar
se a área vai ser mais ou menos afetada, se há riscos para os recursos
hídricos. Tudo em parceria com a gestão de resíduos e saneamento".

O diretor da ONG Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, concorda que o mais
urgente é mudar a maneira de olhar os temas ambientais.

"Eles não são empecilhos, mas sim oportunidades de desenvolvimento. Se Dilma
quer governar o país com a lógica do século 21, ela tem que perceber isso."