quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sistemas baseados no Ego precisam ser substituidos por ação colaborativa, baseada em sabedoria coletiva

Dear Academy Friend,

Firstly, let me wish you and your family all the best for 2011.  

As the new year begins, it is clear that the challenges we face - competitive, economic, environmental or interpersonal - are of such complexity that all ego-based systems must be replaced by collaborative action, based on collective wisdom. This is the theme for Oxford Leadership Academy this year, and I hope it will inspire you to join us in working together to transform business for good.
 
In this spirit, I am proud to share with you the latest issue of the Oxford Leadership Journal.  Our editor, Robert Ziegler, has done an excellent job in compiling this issue by addressing questions of complexity from several angles; I am confident that you will find the articles highly relevant.
 
Click here to access the January 2011 edition of the Journal.

Wishing you courage, integrity, decisiveness and humility - the values we believe will be most important for leaders in the Year of the Rabbit. [no calendário chinês 2011 é o ano do coelho].

Warmest regards,
Brian

Brian K. Bacon
Chairman & Founder,
Oxford Leadership Academy
Mill Street, Oxford, OX2 OJX, UK
Tel + 44 (0) 1865 811114
Mob + 44 (0) 77 8099 2450
Fax + 44 (0) 870 420 8857
 
 
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dilma lança sistema nacional de prevenção de desastres

Para evitar novas tragédias como as que atingem a região serrana do Rio de Janeiro e outras áreas do País todos os anos, o governo federal anunciou, nesta segunda-feira, o lançamento do Sistema Nacional de Prevenção e Alerta de Desastres Naturais. O anúncio foi feito após reunião entre a presidente Dilma Rousseff e os ministros da Defesa, Nelson Jobim, de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Integração Nacional, Fernando Bezerra.
A expectativa do governo federal é de que o sistema esteja em pleno funcionamento dentro de quatro anos. "Mas já esperamos respostas para o próximo verão. Vamos implantar pelo menos nas áreas mais críticas", afirmou o ministro de Ciência e Tecnologia.
Segundo Mercadante, o sistema de alerta vai prevenir os desastres naturais mais comuns no Brasil, que são deslizamentos de terra, inundações, ressacas, secas e vendavais. Um novo supercomputador foi adquirido, com capacidade para escanear o território nacional a cada 5 km², quando antes esse mapeamento era feito a cada 20 km². "Isso vai esquadrinhar o Brasil em regiões menores e nos dará uma previsão mais precisa", disse Mercadante. O sistema terá uma sede nacional e outras cinco distribuídas entre as regiões brasileiras.
"Para aprimorar a capacidade de previsão do tempo, vamos implantar novos radares meteorológicos e integrar todos os disponíveis, inclusive os da Aeronáutica, num só sistema. A previsão por satélite dá uma estimativa boa para três dias antes, quanto mais próximo, mais seguro. Mas os radares captam a chuva que está efetivamente ocorrendo, o que nos avisa sobre o encharcamento do solo", afirmou o ministro de Ciência e Tecnologia.
Além dos radares, 700 pluviômetros (equipamentos que captam o volume de chuva) serão adquiridos pelo governo federal - o que ainda depende do Ministério do Planejamento para determinar o ritmo de compra dos equipamentos. A intenção é fazer o levantamento das condições de solo e geografia do País. "Estimamos em aproximadamente 500 áreas de risco no País, com cerca de 5 milhões de pessoas morando nessas áreas, e temos outras 300 regiões sujeitas a inundações", disse Mercadante. O sistema será coordenado pelo ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) Carlos Nobre, que ficou à frente do órgão por 12 anos.
O ministro da Integração Nacional afirmou que Dilma determinou o retorno de alguns titulares para acompanhar a situação no Rio de Janeiro. "Voltaremos eu (Fernando Bezerra), o ministro da Justiça e o ministro da Defesa já amanhã. Vamos visitar as cidades atingidas para que possamos reforçar nossas ações e iniciar o monitoramento mais próximo das áreas ainda sujeitas a riscos, para evitar a perda de novas vidas", declarou.
Chuvas na região serrana
As fortes chuvas que atingiram os municípios da região serrana do Rio nos dias 11 e 12 de janeiro provocaram enchentes e inúmeros deslizamentos de terra. As cidades mais atingidas são Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), choveu cerca de 300 mm em 24 horas na região.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Revisão do Código Florestal pode legalizar área de risco e ampliar chance de tragédia

16/01/2011 - 04h04
DE SÃO PAULO
O projeto do novo Código Florestal amplia a chance de ocupação de áreas de risco, uma das razões das mortes causadas pela chuva no Sudeste, informa a reportagem de Vanessa Correa e Evandro Spinelli publicada na edição deste domingo da Folha.
Leia relatos sobre os estragos
Saiba como fazer doações para as vítimas das chuvas
Veja como ficaram os pontos turísticos
Veja imagens dos estragos no Rio
Veja cobertura sobre chuvas na região serrana do Rio
O texto em tramitação no Congresso não considera topos de morro como áreas de preservação permanente e libera a construção de casas em encostas. Em locais assim houve deslizamentos que mataram centenas de pessoas no Estado do Rio.
O projeto reduz ainda a faixa de preservação nas margens de rios, criando brecha para o uso de áreas como o alagado Jardim Pantanal, zona leste paulistana.
O relator da revisão do Código Florestal, Aldo Rebelo (PC do B-SP), nega que o projeto trate de regras nas cidades. O texto, porém, cita a regularização fundiária de áreas urbanas.

Editoria de Arte/Folhapress

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Não é a chuva que deve ir para a cadeia

14 Jan 2011, 12:30
Das surpresas do clima quem pode falar por todos os políticos com conhecimento de causa são os faraós egípcios. Eles, como o ex-presidente Lula, agiam como enviados do céu à terra. E, ao contrário do ex-presidente Lula, não falam desde que saíram de cena, a não ser por intermédio de escribas e hieroglifos.

Mas, como encarnações do sol, se o sol fracassava lá em cima eram arrancados do trono cá embaixo, surrados e cuspidos no fundo do Nilo. Tudo porque o rio deixava de inundar o delta que nutria seu reino agrícola. Lá, o regime político mudava conforme o regime do rio. Tornava-se violento e insurreto até o Nilo voltar à normalidade, irrigando uma nova dinastia.

As vítimas dessas tragédias políticas e climáticas não tinham, na época, como saber que as cheias do Nilo eram regidas pelas chuvas de monção do Sudeste Asiático, que por sua vez dependiam de ventos conjurados pela temperatura das águas no Oceano Pacífico, do outro lado da terra, na costa da América do Sul, um lugar mais distante que o sol do cotidiano egípcio.

O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na Região Serrana do Rio de Janeiro. 
O culpado da desordem era um fenômeno natural que só entrou há duas décadas no noticiário internacional, com o nome de El Niño. Mas deixar o clima fazer seus estragos à solta, em Tebas ou Menfis, tinha custo político, porque da regularidade do rio dependiam vidas humanas. O preço era injusto, cruel e exorbitante. Como é injusto, e talvez seja também cruel e exorbitante, que hoje não se processe no Brasil, por homicídio culposo, o político que patrocina baixas evitáveis e supérfluas em encostas carcomidas e vales entulhados por ocupações criminosas.

No dia em que um prefeito, olhando as nuvens no horizonte, enxergar a mais remota possibilidade de ir para a cadeia pelas mortes que poderia impedir e incentivou, as cidades brasileiras deixariam aos poucos de ser quase todas, como são, feias, vulneráveis e decrépitas. De graça, ou com o dinheiro virtual do PAC, os políticos não consertarão nunca a desordem que os elege.

Não adianta ameaçá-los com ações contra o Estado ou a administração pública, porque o Estado e a administração pública, na hora de pagar a conta, somos nós, os contribuintes. O remédio é responsabilizar homens públicos como pessoas físicas pelos crimes que cometem contra a vida. Às vezes em série, como acaba de acontecer na Região Serrana do Rio de Janeiro.

O resto é conversa fiada. Ou, pior, papo de verão em voo de helicóptero, que nessas ocasiões poupa às autoridades até o incômodo de sujar os sapatos na lama. Pobres faraós. O longo e virtuoso caminho civilizatório que nos separa de seu linchamento está nos levando de volta à impunidade anárquica das entressafras dinásticas, quando a favelização lambia até as suntuosas muralhas de Luxor.

Linchar um político não é a mesma coisa que malhar seus projetos. E os brasileiros estão perdendo mais uma chance de bater com força no projeto de lei número 1.876/99, que o deputado Aldo Rabelo transfigurou, para enquadrar o Código Florestal nos princípios do fato consumado. Ele reduz à metade as áreas de preservação em margens de rio, dispensa da reserva legal propriedades pequenas ou médias e consolida os desmatamentos ilegais. Nunca foi tão fácil saber aonde ele quer chegar com isso, folheando as fotografias aéreas das avalanches em Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Dá para ver nas imagens o que havia antes nos pontos mais atingidos. É o que o novo Código Florestal vai produzir no campo. Mais disso.

Mudar código florestal é buscar catástrofes

 Miriam Leitão
Eu conversei ontem com um conservacionista para ajudar a ilustrar nosso debate sobre essa tragédia que estamos vivendo. Miguel Milano, engenheiro florestal, acabou de fazer uma viagem de 5 mil quilômetros pelo interior do Brasil, pegando as pequenas rodovias. Ele ficou impressionado com o que viu. Disse que morros estão se desfazendo em erosão, porque não se respeita a lei. É preciso ter vegetação em áreas de declive, reserva legal, mata ciliar nos rios.
Contou também que lembrou o que estudou na faculdade: a diferença entre o pico da cheia e o da secas nas áreas vegetadas é de sete vezes; no caso das degradadas, 20 vezes. A água cai em área devastada com mais violência. As árvores também transpiram, bombeando parte da água para a atmosfera. Por isso que é preciso ter reserva florestal, faz parte dessa lógica do planeta.
Ele descreve um quadro de contratação de catástrofe pelo interior do Brasil todo e, nesse momento, o país está discutindo no Congresso a mudança do código florestal, que sugere uma redução de áreas de preservação permanente, de beiras de rio, de reserva legal em todos os biomas.
Vai na direção contrária do que tem de ser feito. Temos de obrigar o respeito a lei, em vez de tentar flexibilizá-la num momento em que os climatologistas nos dizem que tudo vai piorar. Está nas mãos do Congresso decidir se vamos caminhar na direção da catástrofe, aprovando esse relatório da mudança do código, ou recusar essa insensatez. Queremos caminhar para contratar mais dor, mais sofrimento? É preciso aumentar a proteção, não reduzi-la.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Questão de tempo

Miriam Leitão
O GLOBO - 13.01.2011

Chuvas despencam em volume espantoso sobre áreas do Sudeste, fazendo mais de duas centenas de mortos só na Região Serrana do Rio. Na Austrália, vive-se a maior enxurrada em 120 anos. O Ibama passa por mais uma crise — a terceira — provocada pela exigência de licenciamento da hidrelétrica de Belo Monte. Assuntos separados? Não, partes da mesma insensatez.

Os cientistas estão avisando há tempos que os fenômenos naturais, que sempre estiveram conosco, como tempestades e secas, vão acontecer com mais frequência e com mais intensidade. No ano passado, o caudaloso, abundante e aparentemente infinito Rio Negro, na Amazônia, enfrentou uma seca que o transfigurou. As imagens que chegavam de seu leito seco em algumas áreas eram inacreditáveis para quem já o viu na cheia. Como outros rios amazônicos, ele tem oscilações fortes de volume de água, mas o extremo a que chegou na seca do ano passado foi impressionante. Anos atrás, uma seca na Amazônia exibiu o solo da região mais úmida do Brasil rachada como se fosse o Nordeste. É nessa região que o governo pretende construir a maioria das 61 novas usinas hidrelétricas, que, segundo matéria publicada no GLOBO, vão provocar o desmatamento de 5.300 km de florestas só nas áreas dos reservatórios e das linhas de transmissão. Uma dessas usinas é a mais emblemática e mais polêmica: a hidrelétrica de Belo Monte. Ontem, o presidente do Ibama, Abelardo Bayma, pediu demissão alegando motivos pessoais, mas a informação do Blog Político da “Época” é que ele saiu por discordar da licença de Belo Monte. Já houve outros episódios de desabamento no Ibama por causa da mesma hidrelétrica.

As cidades brasileiras não estão preparadas para o momento atual, o que dirá do futuro que os climatologistas prenunciam e alertam. A arquiteta e urbanista da Unicamp Andrea Ferraz Young me disse ontem que tudo foi feito errado no passado na ocupação do espaço urbano:

— Nunca foi considerado o funcionamento do sistema de margens dos rios e das várzeas, a vegetação foi suprimida sem planejamento. Toda a lógica das bacias e microbacias foi ignorada. As margens dos rios que deveriam ter matas ciliares foram cimentadas e concretadas. Os rios que serpenteavam foram transformados em canais retos. As galerias foram mal dimensionadas. O lixo obstrui tudo. Aí, quando vem a chuva, o solo não consegue absorver a água, e aumenta o volume que cai nos canais, que eram rios. Por não ter obstáculos, a água corre com mais velocidade e se transforma em enxurrada.

Ela acha que diante do aviso dos climatologistas de maior intensidade dos eventos extremos, é preciso repensar seriamente o espaço urbano. Uma das ideias mais óbvias e de mais difícil execução é a remoção de quem mora em área de risco:

— É preciso criar dentro das cidades áreas verdes para que o solo possa absorver a água, reduzindo o impacto da chuva, e, nas secas, elevar a umidade dos centros urbanos.

Tudo parece simples e é adiado. Só que o país corre contra o tempo. A Austrália parece um espelho avançado dos riscos que corremos com as mudanças climáticas. Teve quatro anos de secas extremas, consideradas as piores da história do país. Agora tem uma enchente que provocou em algumas áreas fenômenos chamados de “tsunami interno”. Brisbane, a terceira maior cidade do país, ficou submersa. O prejuízo já se conta em bilhões de dólares e o governo alerta que a população se prepare para o pior.

É neste contexto global de mudança do regime hidrológico que se pensa em construir às pressas e a manu militari hidrelétricas na nossa parte da maior floresta tropical do planeta. Belo Monte para ser construída terá que acabar com o que é hoje chamado de a Grande Volta do rio Xingu. Vai remover mais terra do que o necessário para fazer o Canal do Panamá. Terá uma instabilidade já prevista de geração de energia. A capacidade instalada será de 11 mil megawatts, na média pode ser de 4.000, se tanto. Mas pode-se chegar a apenas mil megawatts em alguns períodos do ano. Não estão bem dimensionados os custos fiscais, o governo estatizou o risco econômico através das empresas, do financiamento e dos fundos de pensão. Já os riscos ambientais não podem ser devidamente avaliados porque cada vez que o Ibama tenta fazer isso rolam cabeças. Foi assim que aconteceu em dezembro de 2009 com o então diretor de licenciamento Sebastião Custódio Pires e com o coordenador de infraestrutura e energia Leonildo Tabaja. Logo depois, em janeiro de 2010, o Ibama foi chamado à Casa Civil e enquadrado. Que o licenciamento saísse. Publiquei aqui neste espaço no dia 17 de abril, na coluna “Ossos do Ofício”, a reprodução dos documentos em que o Ibama foi simplesmente atropelado para dar a licença prévia. Agora querem a licença de instalação da mesma forma. A construção de Belo Monte enfrenta oito ações do Ministério Público.

Que país é este, que mesmo diante dos alertas da Natureza de que todos os riscos ambientais precisam ser bem avaliados porque o clima está mudando de forma acelerada, acha que se deve soterrar as dúvidas com uma barragem de autoritarismo? Que país é este, que acha que pode continuar ocupando o espaço urbano sem planejamento, não corrigir os erros do passado e contratar a repetição de tragédias? Ontem, o Bom Dia Brasil mostrou que moradores estão voltando a morar no Morro do Bumba, em Niterói, que desabou porque era uma favela feita sobre um lixão. Que país canta “Às margens do Ipiranga”, mas soterra o Ipiranga sobre concreto, como fez com inúmeros outros rios, córregos, riachos? Se você mora em tal país, está na hora de exigir que ele comece a mudar. É uma questão de tempo.

Código Florestal: apoio da AGU a mudanças contraria tese da Sociedade Rural Brasileira

Flavia Bernardes

O órgão do governo federal se manifestou em defesa das mudanças relativas às Reservas Legais, previstas para o Código Florestal brasileiro. Ao Supremo Tribunal Federal (STF), foi enviada uma manifestação da AGU em resposta a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIn) ajuizada pela Sociedade Rural Brasileira.
Segundo a Sociedade Rural Brasileira, as mudanças alteram a exigência de Reserva Legal, estabelecendo, sem previsão de ressarcimento, novas restrições e obrigações aos proprietários de imóveis rurais. A entidade afirma que a Reserva Legal não possui natureza de limitação administrativa e que sacrificaria direitos individuais em prol da coletividade, devendo o Estado ressarcir o dono da área.
A ADIn prevê também que a recuperação da Reserva Legal não pode ser atribuída ao proprietário, mas somente ao poder público diante do que determina o parágrafo único do artigo 255 da Constituição Federal (CF). O dispositivo afirma que "todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações".
Já para a Advocacia Geral da União (AGU) não se trata de interferência no direito de propriedade, muito menos confisco de propriedade privada, diante da possibilidade de utilização da área da Reserva Legal do imóvel rural, desde que o manejo seja sustentável e obedecidas as demais disposições ambientais.
Legalidade
A AGU argumentou que a norma está em conformidade com o que prevê a Emenda Constitucional nº 32, de 2001, que se definiu pela validade/continuidade das medidas provisórias editadas em data anterior à publicação até que nova medida as revogue ou até deliberação do Congresso Nacional.
No que diz respeito ao ressarcimento, a AGU entende que deve ser levado em consideração, nesses casos, o fato de que o direito de propriedade já nasce com a função ambiental que obriga o titular a ceder, respeitar e a recompor as reservas conforme necessidade.
A Sociedade Rural Brasileira tem como posições sobre a legislação  florestal brasileira a necessidade de que a abertura de novas áreas só será permitida mediante rigorosos estudos de  zoneamento ambiental e econômico; que nas  propriedades rurais as atividades sejam conduzidas de forma a conservar os  recursos naturais, especialmente a água e o solo, inclusive com reflorestamento de áreas onde tal medida seja a mais indicada; que sejam constituídas as reservas florestais que a sociedade brasileira considerar  necessárias, preferencialmente em terras impróprias ou marginais para uso agropecuário.
Entende ainda que as reservas florestais são um benefício para toda a sociedade brasileira e que os  custos para sua implantação e manutenção devem ser distribuídos por toda a sociedade e não exclusivamente para os produtores rurais, que não têm recursos ou renda para suportar tal encargo.
Na prática, a sociedade entende que a legislação não deve obrigar que as terras apropriadas para a agropecuária, que  estejam sendo utilizadas para esta finalidade de forma sustentável, sejam convertidas para uso florestal.
Leia mais:
Comunidade científica reage contra mudanças no Código Florestal
http://www.seculodiario.com.br/exibir_not.asp?id=6334

Precisamos de ciência e tecnologia de prevenção de desastres associados a eventos climáticos

Sérgio Abranches
11 janeiro, 2011
Chuvas fortes e secas prolongadas não são novidades no Brasil e vão aumentar de frequência e intensidade ao longo desta década. Também não são novidades as enchentes, os deslizamentos, as populações desprevenidas, que ficam sem águas, as perdas associadas a esses eventos.
Com o tenho insistido aqui, não existem ‘desastres naturais’. Existem desastres associados a fenômenos naturais. Um tsunami em alto mar, sem ilhas habitadas ou navios por perto não vira desastre se não chegar a áreas habitadas. Permanece apenas como registro científico de um fenômeno natural. Tudo se agrava quando o ‘ambiente construído’ é mal planejado e mal construído. Além de não prever e levar em consideração a possibilidade de eventos climáticos extremos, não é construído de forma a evitar resistir a eles. Pontes e prédios agravam as enchentes ao barrar o fluxo das águas. Prédios e casas desabam porque não foram feitos para resistir à forças das águas ou do vento. Não há abrigos, rotas de escoamento, planos de remoção. Não temos um sistema de alerta para eventos iminentes, somos muito deficientes na análise, classificação e gestão de riscos de desastres. Fazemos muito pouco para prevenir, mitigar ou evitar o desastre, não os eventos climáticos, que são inevitáveis.
O ministro Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, disse que quer criar um “grande programa de previsão de catástrofes naturais”. Ele está certo. Mas precisamos mais que apenas um sistema de previsão ou de “georreferenciamento de áreas de risco e previsão meteorológica que tenha maior capacidade de se antecipar aos fenômenos”. Isso, segundo o ministro, permitiria que a gente tivesse, “com a Defesa Civil e o apoio das Forças Armadas, condições de prevenir desastres naturais”.
Não podemos evitar um terremoto ou uma tempestade tropical. Mas podemos usar o conhecimento científico e tecnológico que já temos e que possamos desenvolver para definir áreas de risco e remover populações dessas áreas; melhorar as obras de infra-estrutura em função do comportamento das águas; evitar deslizamentos; criar sistemas de sensores para alertar as comunidades e organizar respostas adequadas das autoridades da defesa civil e da própria comunidade. A defesa civil pode mesmo se beneficiar de inteligência – pesquisa e sistemas de alerta prévio – novas tecnologias, melhores equipamentos. Além disso, precisamos pesquisar os riscos de novos eventos extremos que enfrentaremos no futuro próximo com a mudança climática. Temos grande incidência de tornados no país e sequer nos damos conta disso.
É preciso ter pesquisa permanente sobre os riscos e os tipos de desastres possíveis no Brasil e como e onde os eventos que podem levar a tragédias humanas se agravarão com a mudança climática. Precisamos de desenvolver novas tecnologias em todas as áreas pertinentes à prevenção e mitigação de desastres. E conhecer melhor o nosso futuro climático.
O Japão é um bom caso de sistema desenvolvido de ciência e tecnologia para prevenção de desastres. Desde o após-guerra investiu muito nesse campo. Tem muita tradição nesse campo. O Instituto de Pesquisa em Prevenção de Desastres de Quioto, por exemplo, estuda controles de segurança para o espaço urbano; planejamento para a mitigação de desastres no ambiente construído; inovações em prevenção de desastres; sistemas sociais para a governança de risco de desastres. Em áreas relacionadas a tempestades, há estudos importantes sobre o ambiente climático; o ambiente atmosférico e de tempestades extremas; desastres hidrometeorológicos, entre muitas outras áreas de pesquisa em desastres.
No EUA há numerosos centros que se dedicam à pesquisa sobre desastres e desenvolvimento de tecnologias e sistemas sociais de governança. Tem também um extenso programa federal de financiamento à pesquisa de prevenção e mitigação de desastres.
A ONU tem uma Estratégia Internacional para Redução de Desastres.
A Índia tem um programa extenso de gestão de desastres. A China tem um Instituto de Ciência e Tecnologia de Prevenção de Desastres bastante desenvolvido.
E não é só o Governo Federal que deve se dedicar a isto não. Os governos dos estados e das grandes capitais também.
Esta é uma área de pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico estratégica no século 21 não apenas para a segurança coletiva e proteção da população. Ela é crucial para a segurança econômica, alimentar, energética do país. Portanto, parte do conceito correto de segurança nacional.

Um dia Volta

Mudanças climáticas não podem ser desculpa para enchentes, diz especialista

DA BBC Brasil

O aumento da incidência de chuvas em consequência das mudanças climáticas globais não pode servir de desculpa para os governos não agirem para evitar enchentes, na avaliação de Debarati Guha-Sapir, diretora do Cred (Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres), de Bruxelas, na Bélgica.

"Não é possível fazer nada agora para que não chova mais. Mas temos que buscar os fatores não ligados à chuva para entender e prevenir desastres como esses (das enchentes no Brasil e na Austrália)", disse ela à BBC Brasil.

"Dizer que o problema é consequência das mudanças climáticas é fugir da responsabilidade, é desculpa dos governos para não fazer nada para resolver o problema", critica Guha-Sapir, que é também professora de Saúde Pública da Universidade de Louvain.

O Cred vem coletando dados sobre desastres no mundo todo há mais de 30 anos. Guha-Sapir diz que eles indicam um aumento considerável no número de enchentes na última década, tanto em termos de quantidade de ocorrências quanto em número de vítimas.

Segundo ela, as consequências das inundações são agravadas pela urbanização caótica, pelas altas concentrações demográficas e pela falta de atuação do poder público.

"Há muitas ações de prevenção, de baixo custo, que podem ser adotadas, sem a necessidade de grandes operações de remoção de moradores de áreas de risco", diz, citando como exemplo proteções em margens de rios e a criação de áreas para alagamento (piscinões).

Para a especialista, questões como infraestrutura, ocupação urbana, desenvolvimento das instituições públicas e nível de pobreza e de educação ajudam a explicar a disparidade no número de vítimas entre as enchentes na Austrália e no Brasil.

"A Austrália é um país com uma infraestrutura melhor, com maior capacidade de alocar recursos e equipamentos para a prevenção e o resgate, com instituições e mecanismos mais democráticos, que conseguem atender a toda a sociedade, incluindo os mais pobres, que estão em áreas de mais risco", afirma.

Para ela, outro fator que tem impacto sobre o número de mortes é o nível de educação da população. "Pessoas mais educadas estão mais conscientes dos riscos e têm mais possibilidades de adotar ações apropriadas", diz,

Apesar disso, ela observa que a responsabilidade sobre as enchentes não deve recair sobre a população. "Isso é um dever das autoridades. Elas não podem fugir à responsabilidade", afirma.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Einstein não teria chance de sucesso na ciência atual...



Nota do Blog: "A Mente intuitiva é uma dádiva sagrada e a mente racional é um servo fiel. Nós criamos uma sociedade que honra o servo e esqueceu da dádiva"

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Mercadante reforça peso da agenda ambiental no MCT

Daniela Chiaretti
Valor Econômico - 10/01/2011

A agenda ambiental subiu de patamar nas prioridades do Ministério da Ciência e Tecnologia na gestão recém-inaugurada por Aloizio Mercadante. Está em gestação a criação de um Conselho de Biodiversidade, a mudança climática ganhou destaque e o Brasil pode ser pioneiro em laboratórios marinhos em alto mar. Na Amazônia, a estratégia é criar parques tecnológicos e incubadoras de empresas que tenham a biodiversidade como insumo - a intenção é agregar valor aos bens da floresta.
A marca que o novo ministro pretende imprimir ficou clara em seu discurso de posse. Mercadante mencionou várias vezes que o futuro está na "economia verde". O sinal mais evidente de que ele realmente acredita que a sustentabilidade ambiental é um dos eixos do futuro surgiu ao convidar Carlos Nobre, o mais famoso climatologista brasileiro, para a Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento (Seped). Nobre, que trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordena a Rede Clima - que agrupa 60 instituições e mais de 470 pesquisadores - , aceitou. Em poucos dias estará no comando de políticas e programas de desenvolvimento científico para oceano, Antártica, biodiversidade, biotecnologia, nanotecnologia, meteorologia, hidrologia e, evidentemente, mudança climática.
Um dos primeiros passos é formar um centro de prevenção de desastres naturais com base nos cenários traçados pelo supercomputador que acaba de ser inaugurado no Inpe, o terceiro maior do mundo em meteorologia. "Vamos ampliar para o Cerrado o mapeamento que já fazemos para a Amazônia", disse o ministro ao Valor. Mas melhorar o controle sobre os ecossistemas é só um dos usos do novo computador. Ele será fundamental na previsão meteorológica e na prevenção de desastres naturais, área em que Nobre já vem trabalhando há algum tempo. O mapa de áreas de risco de inundações e deslizamentos de terra indica 500 pontos e cinco milhões de pessoas expostas. Há Estados que têm este mapa detalhado, mas outros não. A intenção é prosseguir com os estudos, cruzar com a previsão meteorológica do Inpe e antecipar a prevenção de desastres.
Outra diretriz será, claro, a Amazônia. "O Brasil é o G1 da biodiversidade mundial", diz o ministro. "Temos que desenvolver instrumentos para transformar esta biodiversidade em desenvolvimento econômico." A contenção do desmatamento tem sido um trunfo, mas é hora de criar empregos de qualidade na região, diz ele.
Outro ponto é valorizar os centros de pesquisa da região como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), de Manaus, o Museu Emilio Goeldi, em Belém, ou o Mamirauá, em Tefé, no Amazonas. "A primeira coisa que estou fazendo é criar uma coordenação, porque ela não existe", explica. "Cada um trabalha em seu projeto, na sua área, seu bioma, sua dinâmica, mas não existe um conselho que coordene, planeje ações, junte forças", prossegue. "Não é só investir na pesquisa da biodiversidade, mas também no desenvolvimento da economia verde. É isto que trará perspectivas econômicas."
Em conjunto com o Ministério do Meio Ambiente, o MCT pretende iniciar um inventário da biodiversidade do País.
Mercadante assumiu um Ministério que cresceu de estatura nas gestões anteriores. Em 1987, o Brasil formava cinco mil mestres e doutores, um número que hoje bate em 50 mil. Há uma oferta de 155 mil bolsas de estudo. O desembolso da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) de ciência e tecnologia era de cerca de R$ 475 milhões em 2002 e foi de R$ 4 bilhões em 2010. Há 122 institutos nacionais de ciência e tecnologia no país e dentro do ministério são 18 institutos de pesquisa, vários considerados centros de excelência. "Agora falta criar a carreira de pesquisador nas universidades", imagina. Outro passo é articular a vida acadêmica e o mundo da produção, duas pontas que pouco se juntam.
Mercadante quer fortalecer o que ele chama de "sociedade do conhecimento". Um dos alicerces é criar o que chama de "comitês de busca e atração" para seduzir os talentos brasileiros que foram viver no exterior durante a recessão. Ele estima que há 3 mil brasileiros dando aula nos Estados Unidos. "Isto é parte da nossa Inteligência. Muita gente foi embora por falta de condições nos anos de baixo crescimento, mas acho que este é o momento do Brasil."
Ele sugere a organização de um portal na Internet para que os talentos se tornem conhecidos e conectados a institutos de pesquisa e empresas por aqui. Também está interessado em abrir espaço para que cientistas estrangeiros possam passar um período nas universidades ou institutos brasileiros. Para isto, cita a necessidade de serem feitos "ajustes" na legislação. "Não estou falando em mudar as regras dos concursos de docência, mas o primeiro requisito para uma universidade chamar um professor estrangeiro é que ele tem que dominar a língua. Mas, assim, vamos excluir muita gente."

Um Planeta Faminto e a Agricultura Brasileira



Nota do Blog: Creio que tal abordagem explica porque o debate em torno das alterações no Código Florestal chegou no plano da objetividade dos números, e da importância de ressaltar todos os números, independente da causa que cada um tenha. Será inevitavel, bom até, que a ciência possa colocar na mesa o menu completo, isto é, complementando uma abordagem como essa da BASF, de tal modo que a sociedade possa julgar por si mesma. Apesar do esmero e da qualidade deste flash, a mensagem subliminar de que é desejável aumentar a área da agricultura não está baseada em estudo sólido. Tampouco mostra o drama dos agricultores com a própria industria de defensivos, que lhes tornam dependentes "químicos". Frutas, legumes e cereais MAIORES não significa mais saudáveis, e a saúde pública está aí para demonstrar is efeitos nefastos dos agrotóxicos na vida de gado, povo marcado, povo infeliz que consome essa nova "comida" abundante. Uma visão crítica e sem retoques de mída da indústria química pode ser visto no documentario "O Mundo segundo a Monsanto".

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Have scientists discovered how to create downpours in the desert?

By Daily Mail Reporter
 3rd January 2011
  • Technology created 50 rainstorms in Abu Dhabi's Al Ain region last year
For centuries people living in the Middle East have dreamed of turning the sandy desert into land fit for growing crops with fresh water on tap. Now that holy grail is a step closer after scientists employed by the ruler of Abu Dhabi claim to have generated a series of downpours. Fifty rainstorms were created last year in the state's eastern Al Ain region using technology designed to control the weather.

Dry as dust: The sand dunes of the United Arab Emirates, which sees no rain at all for months. Now a secret project has brought storms to Abu Dhabi
Dry as dust: The sand dunes of the United Arab Emirates, which sees no rain at all for months. Now a secret project has brought storms to Abu Dhabi
Plan: Scientists are attempting to make clouds in the desert to give man control over the weather
Plan: Scientists are attempting to make clouds in the desert to give man control over the weather

Most of the storms were at the height of the summer in July and August when there is  no rain at all. People living in Abu Dhabi were baffled by the rainfall which sometimes turned into hail and included gales and lightening.

HOW TECHNOLOGY IS KICKING UP A STORM

The Metro System scientists used ionisers to produce negatively charged particles called electrons. They have a natural tendency to attach to tiny specks of dust which are ever-present in the atmosphere in the desert-regions. These are then carried up from the emitters by convection - upward currents of air generated by the heat release from sunlight as it hits the ground. Once the dust particles reach the right height for cloud formation, the charges will attract water molecules floating in the air which then start to condense around them. If there is sufficient moisture in the air, it induces billions of droplets to form which finally means cloud and rain.

The scientists have been working secretly for United Arab Emirates president Sheikh Khalifa bin Zayed Al Nahyan. They have been using giant ionisers, shaped like stripped down lampshades on steel poles, to generate fields of negatively charged particles. These promote cloud formation and researchers hoped they could then produce rain. In a confidential company video, the founder of the Swiss company in charge of the project, Metro Systems International, boasted of success. Helmut Fluhrer said: 'We have achieved a number of rainfalls.'

It is believed to be the first time the system has produced rain from clear skies, according to the Sunday Times. In the past, China and other countries have used chemicals for cloud-seeding to both induce and prevent rain falling. Last June Metro Systems built five ionising sites each with 20 emitters which can send trillions of cloud-forming ions into the atmosphere. Over four summer months the emitters were switched on when the required atmospheric level of humidity reached 30 per cent or more. While the country's weather experts predicted no clouds or rain in the Al Ain region, rain fell on FIFTY-TWO occasions. The project was monitored by the Max Planck Institute for Meteorology, one of the world's major centres for atmospheric physics. Professor Hartmut Grassl, a former institute director, said: There are many applications. One is getting water into a dry area. 'Maybe this is a most important point for mankind.'

The savings using the Weathertec technology are huge with the system costing £6 million a year while desalination is £45 million. Building an ionising system is about £7 million while a desalination plant would be £850 million and costs a lot more to run. Some scientists are treating the results in Al Ain with caution because Abu Dhabi is a coastal state and can experience natural summer rainfall triggered by air picking up moisture from the warm ocean before dropping it on land. But the number of times it rained in the region so soon after the ionisers were switched on has encouraged researchers. Professor Peter Wilderer witnessed the experiments first hand and is backing the breakthrough. The director of advanced studies on sustainability at the Technical University of Munich, said: 'We came a big step closer to the point where we can increase the availability of fresh water to all in times of dramatic global changes.'


Read more: http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1343470/Have-scientists-discovered-create-downpours-desert.html#ixzz1A57WWLrv

Adaptando-se, Partly Cloudy

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Degradação florestal da Amazônia aumenta 548% em novembro

Amazonia.org.br

O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgou hoje os dados de novembro de 2010 do desmatamento e degradação florestal na Amazônia. O SAD, satélite utilizado pelo ONG, registrou um aumento de 548% na degradação florestal, somando 188 quilômetros quadrados. Em novembro de 2009 a degradação somou 29 quilômetros quadrados.

A maior parte (51%) da degradação florestal ocorreu no Pará seguido por Mato Grosso (39%). Segundo o Imazon, degradação florestal são áreas florestais intensamente exploradas pela atividade madeireira ou por queimadas. É diferente do desmatamento, que é a supressão total da floresta com exposição do solo.

A degradação florestal acumulada no período de agosto de 2010 a novembro de 2010 totalizou 2.805 quilômetros quadrados. Isso representou um aumento expressivo (256%) em relação ao período anterior (agosto de 2009 a novembro de 2009), quando a degradação florestal somou 789 quilômetros quadrados.

Desmatamento

O SAD detectou 65 quilômetros quadrados de desmatamento, uma redução de 13% em relação a novembro de 2009, quando o desmatamento somou 75 quilômetros quadrados. Em novembro de 2010, os Estados com maior área desmatada foram Mato Grosso (38%), Pará (29%) e Rondônia (20%). O restante do desmatamento ocorreu em Roraima (5%), Amazonas (5%) e Acre (3%).

Os dados podem estar subestimados, já que só foi possível monitorar 30% da área florestal na Amazônia Legal. Os outros 70% estavam cobertos por nuvens, o que dificultou o monitoramento na região, principalmente no Amapá, Rondônia, Pará e Mato Grosso, os quais tiveram mais de 70% da área florestal coberto por nuvens.

O desmatamento acumulado no período de agosto de 2010 a novembro de 2010 somou 598 quilômetros quadrados. Em comparação com o período anterior (agosto 2009-novembro 2009), quando o desmatamento somou 757 quilômetros quadrados, houve redução de 21%.

Segundo o boletim, em novembro de 2010 o desmatamento detectado comprometeu 4 milhões de toneladas de CO2 equivalente, o que representa uma queda de 21% em relação a novembro de 2009. No acumulado do período (agosto - novembro 2010) o desmatamento comprometeu 36 milhões de toneladas de CO2 equivalentes. Isso representa uma redução de 23% em relação ao período anterior (agosto de 2009 a novembro de 2009) quando o carbono florestal afetado pelo desmatamento foi cerca de 47 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Complexo como o fim da escravidão

José Eli da Veiga
VALOR 21/12/2010
As evidências sobre o aquecimento global começaram a ser consolidadas em 1971 no primeiro evento internacional sobre o tema, em Estocolmo: "Study of man's impact on climate". Vinte anos depois, a ONU montou o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC). Decisão que saiu de um grande conclave cujo título enfatizava "as implicações das mudanças atmosféricas para a segurança global" (Toronto, 1988).
Quatro anos depois foram adotados no Rio os fundamentos do complexo processo institucional posterior: a Convenção do Clima. Ainda outros cinco anos se passaram até que fosse assinado o autista Protocolo de Kyoto, em 1997. Mais oito para que ele pudesse entrar em vigor, em 2005, com a ratificação da Rússia. Pior: as posteriores conferências das partes foram paupérrimas em decisões que efetivamente contribuíssem para a descarbonização.
A rigor, há um único precedente histórico que ajuda a encarar com otimismo tanta morosidade na busca de solução que encurte a agonia da era fóssil e acelere a passagem à economia de baixo carbono: o processo que pôs fim à escravidão. Se não houver guerra nuclear, cujas consequências são absolutamente imprevisíveis, com certeza as emissões de gases de efeito estufa serão minimizadas no século 21 em circunstâncias sociais e políticas comparáveis às da emancipação dos escravos no século 19.
São duas feridas essencialmente éticas, cuja lentidão das cicatrizações se deve a inércias culturais só superáveis por obra de oportunismos econômicos capazes de engendrar rupturas políticas tão corajosas quanto traumáticas. Por isso, é aconselhável aos que se empenham contra o aquecimento global que revisitem a história dos movimentos sociais pela libertação dos escravos, dando particular atenção às razões de suas derrotas e sucessos parciais durante o meio século que precedeu as abolições, só desencadeadas em 1833 pelo império britânico.
Os lucros das plantações das Índias estavam no coração da economia como hoje estão os do petróleo e do carvão
Os pioneiros do abolicionismo, principalmente "quakers" ingleses, sabiam que a tarefa que tinham se proposto parecia impossível. Praticamente todos os britânicos, de peões a bispos, aceitavam a escravidão como algo inteiramente normal. Afinal, viviam num país em que os lucros das plantações das Índias Ocidentais estavam no coração do sistema econômico, como ocorre hoje com os lucros do petróleo e do carvão. As taxas alfandegárias sobre o açúcar cultivado pelos escravos constituíam imensa fonte de renda para o governo e a vida de centenas de milhares de marinheiros, mercadores e construtores de navios dependia do tráfico de escravos. Comércio cuja expansão na segunda metade do século 18 tornara prósperos diversos portos britânicos, inclusive o de Londres.
Em tais circunstâncias, como levar a opinião pública a pressionar o parlamento, se nem tinham direito a voto todas as mulheres e 95% dos homens? Manchester já era a segunda maior cidade do país, mas não tinha sequer um representante na Câmara dos Comuns, enquanto uma quase desabitada colina (Old Sarum) contava com dois. Enfim, chega a ser inacreditável que os abolicionistas tenham conseguido a proibição do tráfico apenas 20 anos depois de sua primeira reunião. E com mais 30 anos o fim da própria escravidão.
Foi decisiva nesse processo a contribuição de James Stephen, um dos principais advogados marítimos do império. Sua experiência no mundo do comércio internacional lhe deu a ferramenta crucial para a luta em favor da abolição. Sua grande aversão ao escravismo foi cuidadosamente mantida em segredo, e seus argumentos eram práticos e impecavelmente patrióticos. Atraiu, de forma sub- reptícia, o apoio de um poderosíssimo lobby com o projeto de que também os navios com bandeiras neutras se tornassem atacáveis. Sob o sistema de "recompensa", tanto militares da marinha como tripulações de navios particulares tinham o direito de compartilhar o valor dos navios e das cargas que capturassem. Essa era a maneira com que os oficiais sonhavam ficar ricos e seus marinheiros imaginavam poder complementar seus magros vencimentos. Com grande habilidade, Stephen evitava se referir à natureza da carga que quase todos esses navios carregavam: escravos.
Muitos outros episódios desse tipo estão minuciosamente descritos no empolgante livro do jornalista Adam Hochschild: "Enterrem as correntes; profetas e rebeldes na luta pela libertação dos escravos (Record, 2007). Todos reforçam a hipótese de que o processo de transição ao baixo carbono só receberá um decisivo empurrão quando deputados e senadores do congresso dos Estados Unidos forem convencidos por argumentos práticos e patrióticos a mudar radicalmente a atual estratégia de segurança energética baseada no petróleo e no carvão, mesmo que a peça legislativa nem mencione a ruptura climática. Seria o término da já longa agonia da era fóssil, mesmo que ainda fossem
necessários alguns anos para que ela se tornasse global. Sem um fato dessa natureza, nada de realmente importante poderá resultar das negociações multilaterais.
José Eli da Veiga é professor titular da USP (FEA e IRI) e autor de "Sustentabilidade" (Ed. Senac, 2010), escreve mensalmente às terças. Página web: www.zeeli.pro.br

Um sonho possível: universalização do saneamento1

A situação do saneamento brasileiro é trágica. De acordo com o IBGE, somente 44% da população brasileira tem acesso à rede de esgotamento sanitário e 79% tem acesso a água tratada. Do total de esgoto gerado, apenas 29% é tratado. Cento e sete milhões de brasileiros não têm acesso à rede de esgotamento sanitário, 134 milhões não têm os esgotos de suas casas tratados e 40 milhões não têm acesso a água tratada. Oito milhões não têm nem sequer banheiro. Como mudar este quadro? Como e quando será possível universalizar os serviços de saneamento?
A universalização do saneamento é um sonho possível, mas para o conjunto do país não é realizável da noite para o dia. Não é para a Copa de 2014, nem para as Olimpíadas de 2016. Mas dá para fazer em menos de 15 anos. Isso representaria uma das maiores contribuições deste século para a saúde e para o meio ambiente.
Estimamos que o investimento total para a universalização seja da ordem de R$ 255 bilhões. Colocamos quatro cenários para a universalização do saneamento no Brasil sob diferentes hipóteses.
Num primeiro cenário, a hipótese de manutenção do atual nível de investimento. De acordo com dados oficiais, o investimento em saneamento caiu a partir de 1999 e se manteve entre R$ 4 bilhões e R$ 6 bilhões até 2008, último ano disponível da série. Mantidos os atuais patamares de investimentos e de produtividade, a universalização da água ocorreria em 2039 e do esgoto (coleta e tratamento) apenas em 2060. É inaceitável esperar mais meio século para serviços básicos, disponíveis em vários países desenvolvidos desde meados do o século passado!
Num segundo cenário, supõe-se a duplicação do atual patamar de investimentos sem aumentar a produtividade. O horizonte de tempo para a universalização do saneamento ainda é muito distante: 2031.
1 Este artigo faz parte de trabalho inédito mais amplo apresentado no Encontro Nacional de Economia de 2010.
Numa terceira situação, trabalha-se com a manutenção do investimento, mas introduz o aumento da produtividade. Isto é, o mesmo real passa a gerar mais ligações de água e esgoto mediante melhores projetos e técnicas. Estudos recentes sugerem que um aumento de 30% na produtividade é ambicioso, porém factível. Mas só o aumento da produtividade ainda não permite obter prazo aceitável para a universalização. Neste cenário, a universalização de água se daria em 2028 e a de esgoto em 2042.
E uma última hipótese serve de referência para a formulação de metas de saneamento. Para universalizar em um intervalo de tempo aceitável (até 2024) será preciso ambos: mais investimento (duplicar os valores atuais) e maior produtividade (30% a mais).
A universalização não ocorrerá simultaneamente em todas as regiões do Brasil. A cobertura de saneamento varia muito conforme nas unidades da federação. As únicas com mais da metade dos domicílios atendidos em coleta de esgotos são Distrito Federal (86,3%), São Paulo (82,1%), e Minas Gerais (68,9%); as menores coberturas são Amapá (3,5%), Pará (1,7%) e Rondônia (1,6%).
O último cenário citado só será possível com mudanças macro e microeconômicas.
Do ponto de vista macro, destaquem-se três aspectos. Em primeiro lugar, é preciso reduzir a tributação. Os prestadores de serviços de água e esgoto pagam cerca de R$ 2 bilhões em PIS/PASEP-COFINS por ano, quase um terço do investimento do setor! Essa situação foi agravada a partir de 2003 com a elevação do PIS/PASEP-COFINS. O projeto original da Lei do Saneamento previa a isenção deste tributo para investimentos, mas o artigo foi vetado pelo Executivo.
Em segundo lugar, é preciso resgatar o planejamento do setor. A Lei do Saneamento obriga o Governo Federal a editar um Plano Nacional de Saneamento Básico. Passados quase quatro anos da aprovação da norma, tal plano ainda não existe.
Em terceiro lugar, é preciso estimular as parcerias, tanto as Parcerias Público-Privadas (PPP), como as Parcerias Público-Público e outras modalidades, como a locação de ativos.
O modelo de Parcerias Público-Público vem sendo aplicado, por exemplo, em transferência de tecnologia e conhecimento na formatação de editais e modelagens contratuais entre empresas estaduais de saneamento.
Do ponto de vista microeconômico, também três aspectos podem ser destacados. Em primeiro lugar, as empresas devem ter um planejamento voltado para a geração de valor.
Em segundo lugar, é indispensável reduzir as perdas de água. De acordo com o Ministério das Cidades, a perda média brasileira é próxima a 40%. O combate às perdas de água posterga a necessidade de investimentos em novos sistemas e aumenta a receita das companhias. Além disso, reduz custos operacionais, uma vez que é possível atender a mesma quantidade de pessoas, sem ampliar a produção de água.
Em terceiro lugar, é importante melhorar a gestão de projetos de forma a reduzir o tempo e o custo dos empreendimentos.
Por fim, a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação devem ser incorporados tanto como estratégia empresarial, quanto como política pública no saneamento.
A universalização do saneamento constitui grande desafio. O binômio investimento e inovação pode torná-la realidade para a atual geração. Um sonho possível.
Gesner Oliveira, presidente da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), economista e professor da FGV-SP Fernando S. Marcato, secretário-executivo de Novos Negócios da Sabesp, advogado Pedro Scazufca, assistente executivo da Presidência da Sabesp, economista

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Economistas ainda tentam medir a felicidade

O economista José Eli da Veiga, especialista em desenvolvimento sustentável, explica por que os índices atuais, como o PIB e IDH, deixam muito a desejar

MARCOS CORONATO

Como o processo de desenvolvimento pode se tornar sustentável, se ainda não sabemos direito como medir a qualidade de vida, nem o grau de cuidado com a natureza, nem o próprio crescimento econômico? Esse tipo de preocupação está no cerne das pesquisas do economista José Eli da Veiga, um dos principais pensadores brasileiros no campo do desenvolvimento sustentável, participante da formulação do programa de governo da candidata a presidente Marina Silva (PV) e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. Eli da Veiga lançou em novembro seu livro mais recente, “Sustentabilidade – A legitimação de um novo valor”, pela Editora Senac. No livro, ele afirma não se preocupar com a falta de uma definição muito precisa para “sustentabilidade”. O economista argumenta que outro valor fundamental para a humanidade, a justiça, também desafia definição muito precisa. Mesmo assim, afirma ele, é razoavelmente fácil identificar o que é injustiça, assim como o que é uma prática insustentável. A seguir, alguns trechos de duas conversas de Eli da Veiga com ÉPOCA.

A ECONOMIA DA FELICIDADE
Houve a discussão no Butão, que é uma sociedade bastante atrasada em termos de capitalismo e desenvolvimento. Eles perguntaram por que aceitar essa convenção do Ocidente, que o relógio que mede a sociedade é o PIB, e concluíram que o que interessa é a felicidade. Até aí é uma crítica ótima. Eles substituíram o PIB pelo FIB, que também é uma medida bruta. Mas eles medem misturando tudo, os indicadores objetivos com indicadores subjetivos, que dependem de questionários aplicados à população sobre saúde, educação. Achei uma solução completamente equivocada, que não vai levar a nada.
Há 10 anos discutíamos uma coisa chamada Paradoxo de Easterlin. Ele foi o primeiro a mostrar que, nos Estados Unidos, por exemplo, o PIB não parou de aumentar, mas a felicidade das pessoas, a satisfação das pessoas com a vida, acompanhou o PIB até os anos 60. Depois, virou uma tesoura: foi cada um para um lado. Até um certo patamar de desempenho econômico, mais grana significa mais felicidade. A partir desse patamar, isso não acontece mais. Mais grana não se reverte em mais felicidade. Hoje há uma base de dados e metodologia para essas medidas.

COMO MEDIR A QUALIDADE DE VIDA
Existe um índice que se impôs desde os anos 90, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que vem também sofrendo críticas. Uma delas é que uma dimensão do IDH é o próprio PIB per capita. É um índice que dorme com o inimigo: ele foi criado para evitar que o PIB fosse usado como medida de qualidade de vida, mas ele próprio inclui o PIB. Além disso, ele mede a saúde só pela expectativa de vida e a educação só pelo nível de matrículas (média de anos de estudo). Sempre foi considerado uma medição muito tosca. Mas tem uma lógica: se você quer
que 200 e tantos países no mundo façam esse cálculo, não adianta ser uma coisa muito complicada, senão metade dos países nunca vai calcular.
O que há de alternativo a isso é o Relatório Stiglitz, encomendado pelo governo francês. Para medir qualidade de vida, o relatório propõe um indicador complexo, com oito dimensões: educação, saúde, segurança econômica, segurança propriamente dita e assim por diante. E recomenda também o uso de indicadores subjetivos (obtidos por meio de questionários e pesquisas feitas com a população, em vez de contabilidade). Existem coisas consistentes nessa área de pesquisa chamada economia da felicidade.
Nós vivemos no Brasil um momento razoável de estabilidade econômica, um crescimento que não precisa ser muito maior que o atual, do meu ponto de vista, e pelo menos algumas migalhas estão indo para uma melhora geral da qualidade de vida. Isso começou de forma meio hesitante no governo Fernando Henrique Cardoso, depois ganhou força no meio do governo Lula. No caso da Indonésia, começou a acontecer coisa desse tipo, mas com uma exploração predatória de um recurso natural. Não acho que seja o caso do Brasil, temos um caso com mais nuances. (Mas) quem acha que sustentabilidade rima com qualidade de vida está por fora da história. É o contrário.

O PIB AINDA SERVE PARA MEDIR O CRESCIMENTO ECONÔMICO?
Com a contabilidade nacional posso calcular várias coisas – o PIB, o PNB ou uma coisa chamada Produto Interno Líquido. O que é bruto não tem a amortização – a desvalorização e o gasto de reposição de um carro, de uma máquina. Não se cogitava antes fazer amortização do capital natural. Hoje sabemos que, seu eu exploro uma mina, não posso considerar só o que eu faturo. Alguma coisa tem de ir para a outra coluna da contabilidade, porque eu estou dilapidando aquele patrimônio.
O PIB já era ruim por outros motivos, mesmo sem pensarmos em sustentabilidade.
O (economista Eduardo) Giannetti foi aplaudido no lançamento do meu livro por lembrar que o trabalho doméstico não é remunerado (Giannetti afirmou que educar uma criança é um trabalho extremamente nobre e não entra no PIB). Cuidar de um idoso, por exemplo, não entra no PIB. Se não houver troca com o mercado, não entra no PIB.
Há críticos que dizem que o PIB não serve para medir qualidade de vida. Mas os contabilistas respondem que o PIB não é mesmo para esse fim, ele é uma medida econômica da produção. Essa é a crítica boba. Mas há outra crítica, de que o PIB não é bom nem como indicador de produção. Li num documento do Wikileaks, de um diplomata que estava na China, conversando com um governador de província. O governador dizia que o PIB era bom para constar, mas que ele não levava em conta. Ele dizia “aqui, peço para saber qual foi o aumento do consumo de eletricidade, da carga dos trens, isso aí mostra muito mais como é o desempenho da economia”. A Irlanda é outro exemplo – lá, o PIB cresceu, mas a renda das famílias não.
O (presidente da França, Nicolas) Sarkozy teve a sacada e convidou o (Nobel de Economia Joseph) Stiglitz e o (Nobel de Economia) Amartya Sen para montar uma equipe. Eles passaram um ano trabalhando nisso. Uma das primeiras conclusões a que eles chegaram: nós precisamos de três medidas diferentes. Uma do desempenho econômico, uma da qualidade de vida, outra da sustentabilidade. São três coisas diferentes, que não devem ser misturadas. Ele
propõe que o PIB seja substituído desempenho econômico seja medido pela renda ajustada ou renda líquida das famílias. É uma medida que deduz as despesas obrigatórias da família, como impostos. Eles querem calcular quanto sobra, a renda disponível para a família usar no consumo da maneira que ela decidir – comprando banana, automóvel, colocando na poupança, em educação melhor para os filhos.
Não é um cálculo simples. Se o IBGE resolver fazer isso, vai precisar de um certo tempo. A proposta, além de logicamente interessante, recebeu uma espécie de confirmação com Irlanda. O PIB disparou e a renda líquida das famílias nunca mudou. Havia uma disparidade. O PIB era um indicador ilusório e levou o mercado financeiro a grandes equívocos sobre a Irlanda.

COMO CHEGAR A UM PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Não vejo tanto problema assim no fenômeno do greenwashing (a tentativa de empresas de “lavar” a imagem usando o discurso de sustentabilidade social e ambiental). Quando a empresa começa a usar o termo sustentabilidade, mesmo de maneira oportunística, abre a possibilidade de os clientes, fornecedores e parceiros irem em cima dela com cobranças. Existem muitos casos de companhias que começaram a usar o apelo sustentável sem uma política muito séria e depois tiveram de definir essa política.
Não tem regra do que vem antes e o que vem depois. Não tenho resposta quando as pessoas perguntam “você não acha que isso exige principalmente uma mudança de comportamento?”. Inovação tecnológica é absolutamente necessária. Mas não posso afirmar que primeiro precisamos descobrir isso para depois ter mudança de comportamento, ou que precisamos primeiro de mudança de comportamento para depois ter a inovação tecnológica. Ou que primeiro precisaremos mudar nossos valores. Cada exemplo na nossa história mostra uma combinação diferente. Eu uso o exemplo da escravidão porque o Eduardo Giannetti fez uma brilhante intervenção (no lançamento do livro de Eli da Veiga, em novembro), mas que era ultrapessimista, reclamando que estava tudo errado. Deu uma sensação de que talvez a humanidade não seja capaz de resolver o problema do aquecimento global. Por isso, lembrei que somos capazes de resolver problemas. Um caso típico foi a escravidão, que existiu durante milênios, em praticamente todas as sociedades, e no período de um século foi praticamente extinta.

José Eli da Veiga: "Se abolimos a escravidão, podemos resolver o aquecimento global"

Para o economista, um dos principais estudiosos do desenvolvimento, a defesa do meio ambiente precisa virar um valor de toda a sociedade

por MARCOS CORONATO

É opinião comum que a escravidão acabou só porque não fazia mais sentido econômico. Para o economista José Eli da Veiga, a história não é bem essa. A escravidão acabou também porque os valores da sociedade mudaram. Ele acredita que algo similar pode estar ocorrendo agora – em relação à defesa do planeta. Eli da Veiga, um dos mais influentes estudiosos do meio ambiente no Brasil, ajudou a formular o programa de governo da candidata Marina Silva, do Partido Verde. Em seu novo livro, Sustentabilidade – A legitimação de um novo valor, ele compara a preocupação com o ambiente a um valor igualmente difícil de definir, a justiça. Segundo ele, a adoção de valores assim é sinal de grandes mudanças. Mas, para que isso ocorra, é preciso encontrar outras formas, além do PIB, para medir o desenvolvimento econômico, dando importância a esses novos interesses da sociedade. Mas não venha falar do IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano. Ele o considera “tosco”. Nem do FIB, o indicador de Felicidade Interna Bruta, que diz ser “equivocado”.

ENTREVISTA - JOSÉ ELI DA VEIGA
QUEM É, Professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), da USP
O QUE FAZ, Pesquisa no Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) da FEA
O QUE PUBLICOU, Dezenove livros. O mais recente, lançado em novembro, é Sustentabilidade – A legitimação de um novo valor, pela Editora Senac


ÉPOCA – Nos últimos anos, ganhou popularidade a ideia de medir a felicidade de um país, como proposto pelo índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), do Butão. Esse seria um indicador melhor que o PIB? 
José Eli da Veiga – Houve a discussão no Butão, uma sociedade atrasada em termos de capitalismo e desenvolvimento. Eles perguntaram por que aceitar essa convenção do Ocidente e concluíram que o que interessa é a felicidade. Até aí é uma crítica ótima. Mas eles medem misturando tudo, os indicadores objetivos, a contabilidade, com indicadores subjetivos, que dependem de questionários aplicados à população sobre saúde, educação. Além disso, com a contabilidade nacional posso calcular várias coisas, como o Produto Interno Bruto, o Produto Nacional Bruto. Mas o que é bruto não tem aquela desvalorização, o gasto de reposição de seu carro, da máquina de uma fábrica, chamada “amortização”. Não se cogitava antes fazer essa “amortização” do capital natural. Hoje, sabemos que, se eu exploro uma mina, não posso considerar só o que faturo. Eu estou dilapidando aquele patrimônio. Eles (no Butão) substituíram o PIB pelo FIB, que também é uma medida bruta. Achei uma solução completamente equivocada, que não vai levar a nada.

ÉPOCA – Essa medida não serve para orientar políticas públicas?
Eli da Veiga – Uma dimensão do FIB é algo como a satisfação do cidadão com a educação, completamente subjetiva. Outra é algo como o custo de vida, superobjetivo. O resultado de uma soma assim não tem significado. Dizer que o FIB aumentou 10% não quer dizer coisa nenhuma. É como somar automóveis com bananas. Nenhum outro país adotou. Tem uma discussão muito interessante na Inglaterra para chegar a um índice de felicidade. Só que eles não vão misturar as coisas. Desde 1994 já havia reclamações dos economistas sobre indicadores de desenvolvimento. O (presidente da França, Nicolas) Sarkozy teve uma sacada e convidou o (Nobel de Economia Joseph) Stiglitz e o (Nobel de Economia) Amartya Sen para montar uma equipe. Eles passaram um ano trabalhando nisso. Uma das conclusões a que chegaram (em 2009): nós precisamos de três medidas diferentes. Uma do desempenho econômico, uma da qualidade de vida, outra da sustentabilidade. São três coisas diferentes, que não devem ser misturadas. O relatório propõe que o PIB seja substituído e o desempenho econômico seja medido pela renda ajustada ou renda líquida das famílias – é a renda disponível para a família usar no consumo da maneira que decidir. A proposta recebeu uma espécie de confirmação com a Irlanda: o PIB lá disparou, mas a renda líquida das famílias nunca mudou. Havia uma disparidade. O PIB era um indicador ilusório. A segunda medida é a de qualidade de vida. Existe um índice que se impôs desde os anos 90, o IDH, que vem também sofrendo críticas. Ele mede a saúde só pela expectativa de vida e a educação só pelo nível de matrículas (média de anos de estudo). Sempre foi considerado uma medição tosca. Para medir qualidade de vida, o Relatório Stiglitz propõe um indicador complexo, com oito dimensões: educação, saúde, segurança econômica, segurança propriamente dita e assim por diante. E recomenda também o uso de indicadores subjetivos.

ÉPOCA – Mas sem misturar indicadores objetivos com subjetivos. 
Eli da Veiga – Não vai demorar para o Reino Unido também ter um indicador de felicidade. O Relatório Stiglitz recomenda que os países façam isso. E, no relatório, eles rejeitaram o uso de indicadores monetários para sustentabilidade. Havia uma discussão entre economistas assim: não há mercado para o meio ambiente, mas não faz mal, a gente dá um jeito de atribuir preço para isso. Qual é o valor do ar puro? E da água limpa? Quanto as pessoas estariam dispostas a pagar? Eles (Stiglitz e Sem) rejeitaram a ideia de que o indicador de sustentabilidade possa ser monetário. Disseram que tem de ser na linha da pegada ecológica, um indicador físico ou
bioquímico. Se você tem uma pegada carbono, uma pegada de recursos hídricos e uma pegada de biodiversidade, pronto, você tem um indicador.

ÉPOCA – Uma ideia bem difundida é que qualidade de vida e sustentabilidade estão muito relacionadas. 
Eli da Veiga – Depende. Eu posso obter uma tremenda qualidade de vida, mas por meio de dilapidação do meio ambiente. Isso tem perna curta. Um caso clássico é o da Indonésia. O país bombou nos anos 80 e 90, montou uma tremenda indústria exportadora, enquanto acabava com a floresta.

ÉPOCA – E, naquele momento, isso se reverteu em melhor qualidade de vida. 
Eli da Veiga – Nós vivemos no Brasil um momento razoável e pelo menos algumas migalhas estão indo para uma melhora geral da qualidade de vida. No caso da Indonésia, começaram a acontecer coisas desse tipo, mas com uma exploração predatória de um recurso natural. Não acho que seja o caso do Brasil. Mas quem acha que sustentabilidade rima com qualidade de vida está por fora da história.

ÉPOCA – A sociedade pode precisar abrir mão de qualidade de vida no presente para ter sustentabilidade? 
Eli da Veiga – Não necessariamente abrir mão, mas, se você tem consciência de que aquele ritmo de aumento de qualidade de vida se baseia numa predação dos recursos naturais, pode ter certeza de que é insustentável.

ÉPOCA – Preservar o meio ambiente vai exigir um novo padrão moral? 
Eli da Veiga – Não tem regra do que vem antes e o que vem depois. Cada exemplo em nossa história mostra uma combinação diferente. Eu uso o exemplo da escravidão porque o (economista) Eduardo Giannetti deu uma declaração brilhante, mas ultrapessimista. Deu uma sensação de que talvez a humanidade não seja capaz de resolver o aquecimento global. Por isso, lembro que somos capazes de resolver problemas como a escravidão, que existiu durante milênios, em praticamente todas as sociedades, e no período de um século foi praticamente extinta. Quando estudamos como foi esse processo, a maior parte da literatura insiste numa explicação econômica de que o capitalismo foi evoluindo e chegou ao ponto em que não era mais rentável manter escravos. Se você for ver a história completa, o movimento pelo fim da escravidão nasceu na Inglaterra, com petições mandadas ao Parlamento por gente do povo, principalmente religiosos. Tinha na frente a questão dos valores, do comportamento, do respeito ao ser humano, muito antes de uma exigência econômica. À medida que esses caras foram vencendo e foi sendo abolido o tráfico de escravos, ficou mais caro ter escravos. Com o escravo mais caro, os senhores passaram a cuidar melhor deles. Como o mundo já havia abolido a escravidão e o Brasil não, as elites brasileiras eram discriminadas quando iam à Europa. Começou com mudanças de valores, e os mais resistentes mudaram quando a economia exigiu. Podemos estar pensando na sustentabilidade ambiental hoje como eles pensavam na escravidão: é difícil imaginar um mundo sustentável. A tese central de meu livro é que sustentabilidade é um novo valor, do mesmo jeito que os direitos humanos eram quando houve o processo de abolição da escravidão.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Marina Silva despede-se do Senado após 16 anos

Em discurso, parlamentar do PV do Acre fez balanço de sua trajetória na Casa
Agência Senado
AEAE
A senadora Marina Silva (PV-AC) é cumprimentada pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP) durante seu discurso de despedida
Em longo e emocionado discurso na tarde desta quinta-feira, a senadora Marina Silva (PV-AC) fez um balanço dos últimos 16 anos de sua trajetória e despediu-se do Senado Federal recebendo elogios de seus pares. A senadora agradeceu a sua família, a toda a sua equipe e assessores do Senado e do Ministério do Ambiente, citou nominalmente senadores e deputados de diversos partidos e elogiou a dedicação dos servidores do Senado.

Em 1995, aos 36 anos, lembrou Marina Silva, ela chegava ao Senado para seu primeiro mandato como a mais jovem senadora. Ela recordou seu primeiro discurso da tribuna da Casa, quando registrou sua história política e pessoal, uma seringueira que só se alfabetizaria pelo Mobral aos 16 anos de idade e alcançou o Senado Federal.

"Tenho imensa gratidão pelo povo acreano. Não tenho nada a exigir, a cobrar do povo acreano. Só tenho que agradecer. Nada disso teria acontecido se não fosse pelas suas mãos - disse a senadora lembrando algumas frases de seu primeiro pronunciamento na Casa".

Marina Silva disse ter pautado sua atuação no Senado em três diretrizes básicas: opinião, proposição e articulação. Opinião baseada em princípios e valores, na ética e na moral. Articulação em busca de apoio e diálogo com os mais diversos partidos e setores sociais.

"No que concerne a ser um mandato de proposição, durante esses 16 anos, com um intervalo de 5 anos no Ministério do Meio Ambiente [2003-2007], foi apresentado um conjunto de projetos dos quais tenho muito orgulho. Foram 125 proposições, algumas delas transformadas em lei", explicou.

A senadora se disse de certa forma triste por não ter conseguido ver aprovado um de seus primeiros projetos de lei, o que instituiria a Lei de Acesso aos Recursos da Biodiversidade.

"Saio daqui com essa frustração. Saio daqui com essa falta, a falta de que o Brasil não tem uma lei para proteger e usar, com sabedoria, os 22% de espécies vivas que estão no nosso domínio territorial, só para citar um exemplo", acrescentou.

Lembrou ainda de várias conquistas pelas quais lutou para ver consolidadas: linha de crédito para extrativistas, subsídio para a borracha, Programa Amazônia Solidária, Comissão da Pobreza, luta contra mudanças no Código Florestal, novo modelo para o setor elétrico, diminuição do desmatamento da Amazônia, criação do Serviço Florestal Brasileiro e do Instituto Chico Mendes, Plano Nacional de Recursos Hídricos, Plano de Combate à Desertificação.

"No mandato, fiquei até 2002, quando tive a honra de ser convidada pelo Presidente Lula para ser sua Ministra do Meio Ambiente. E confesso aos senhores que me senti muito honrada com esse convite. Eu o aceitei como um desafio", disse, recordando ter estabelecido que sua gestão à frente do ministério orientaria a política nacional de meio ambiente pelo controle e pela participação da sociedade. E que o sistema nacional do meio ambiente deveria ser fortalecido, ao passo que o desenvolvimento brasileiro deveria ser sustentável e a política ambiental transversal, envolvendo diversos ministérios.

Marina disse ter ficado no Ministério do Meio Ambiente até o momento em que sentiu apoio para suas ações. "Cerca de 24 milhões de hectares de unidades de conservação foram criados durante minha gestão. Essa é uma contribuição para a proteção permanente que a sociedade brasileira ajudou a estabelecer durante o governo do presidente Lula. Todos aqueles que trabalharam os mapas dos biomas, as áreas prioritárias para as unidades de conservação sabem que, com critério, criamos essas unidades de conservação", acrescentou a senadora, que também relembrou sua saída do PT, em 2009, onde militou por 30 anos, para o PV, um partido pequeno.

A senadora voltou a agradecer a todos os que confiaram a ela seu voto nas eleições de outubro.
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17/12/2010 - 08:09

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Nasa Divulga Análise Sobre Temperatura na Terra


Entidade registra o aumento de temperaturas em 2010 mesmo sendo um ano de pouca atividade solar e sob o efeito da La Niña e desmente teorias que afirmavam que o aquecimento global estaria desacelerando desde 1998.

O Instituto Goddard para Estudos Espaciais da NASA (GISS) analisou dados de 6300 estações meteorológicas, informações de satélites e de centros de pesquisa na Antártica e chegou a uma conclusão: não há dúvidas de que o planeta está aquecendo.

Segundo a entidade, a temperatura global média subiu 0,8°C desde 1880, sendo que dois terços desse aquecimento se deram depois de 1975. “O mundo está ficando mais quente. Não sabemos se por ação humana ou natural, mas termômetros não mentem e garantem que a temperatura vem subindo constantemente desde o começo da Revolução Industrial”, afirma o site da NASA.

A análise é acompanhada pelo relatório "Global surface temperature change", publicado no periódico Reviews of Geophysics e de autoria dos pesquisadores James Hansen, Reto Ruedy, Makiko Sato, e Ken Lo.

Para os cientistas, os dados registrados em 2010 são especialmente significantes porque o ano foi marcado por uma pequena atividade solar e pela ação do fenômeno La Niña, fatores que deveriam fazer as temperaturas médias do planeta serem mais amenas. Mas ao invés disso, os termômetros registraram até agora um dos anos mais quentes da história. Muito provavelmente, 2010 vai figurar entre os cinco anos com a maior temperatura média já registrada.

No relatório, os autores ainda rebatem as teorias de que o aquecimento global teria parado em 1998 e que desde então ele estaria cada vez menor.

“Nós concluímos que não há sinal de que a tendência do aumento de 0,15°C a 0,20°C por década tenha diminuído. A idéia de que a temperatura global está estável desde 1998 não encontra fundamento nas nossas análises”, afirmam os pesquisadores.

Amazônia

A NASA divulgou também novas fotos da Amazônia, que atravessa a pior seca já registrada. As imagens, capturadas no dia 10 de dezembro, mostram o Rio Negro em seu nível mais baixo, 13,63 metros em Manaus.

Combinando infravermelho e luz visível, a NASA tentou salientar a presença da água. O Rio Negro está significantemente menor em 2010 que em 2008, sendo que muitos dos canais que existiam há dois anos não são mais visíveis.

A seca de 2010 está acontecendo apenas cinco anos depois da seca de 2005, que na época foi chamada de a “seca que ocorre uma vez a cada 100 anos”.

Já o recorde de nível mais baixo do Negro ocorre apenas 16 meses depois do recorde de nível mais alto, 29,77 metros em Manaus. Essa variação é comum na região amazônica, mas não com essa intensidade.

A seca está sendo responsabilizada pelo aumento dos focos de queimadas e pela maior degradação florestal nas últimas semanas.

O Planeta Vai Continuar com Febre


Leonardo Boff

A COP 16 terminou na madrugada do dia 11 dezembro em Cancún com  pífias conclusões, tiradas mais ou menos a forceps. São conhecidas e por isso não cabe aqui referi-las. Devido ao clima geral de decepção, foram até mais do que se esperava mas menos do que deveriam ser, dada a gravidade da crescente degradação do sistema-Terra. Predominou o espírito de Copenhague de enfrentar o problema do aquecimento global com medidas estruturadas ao redor da economia. E aqui reside o grande equívoco, pois o sistema econômico que gerou a crise não pode ser o mesmo que nos vai tirar da crise. Usando uma expressão já usada pelo autor: tentando limar os dentes do lobo, crê-se tirar-lhe a ferocidade, na ilusão de que esta  reside nos dentes e não na natureza do próprio lobo. A lógica da economia dominante que visa o crescimento e o aumento do PIB implica na dominação da natureza, na desconsideração da equidade social (dai a crescente concentração de riqueza e a célere apropriação de bens comuns) e da falta de solidariedade para com as futuras gerações. E querem-nos fazer crer que esta dinâmica nos vai tirar das muitas crises, sobretudo a do aquecimento global.

Mas cumpre enfatizar: chegamos a um ponto em que se exige um completo repensamento e reorientação de nosso modo de estar no mundo. Não basta apenas uma mudança de vontade, mas sobretudo se exige a transformação da imaginação. A imaginação é a capacidade de projetar outros modos de ser, de agir, de produzir, de consumir, de nos relacionarmo-nos uns com os outros e com a Terra. A Carta da Terra foi ao coração problema e de sua possível solução ao afirmar:”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança nas mentes e nos corações. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global”.

Este propósito no se fez presente em nenhuma das 16 COPs. Predomina a convicção de que a crise da Terra é conjuntural e não estrutural e pode ser enfrentada com o arsenal de meios que o sistema dispõe, com acordos entre chefes de Estado e empresários quando toda a comunidade mundial deveria ser envolvida. A referência de base não é a Terra como um todo, mas os estados-nações cada qual com seus interesses particulares, regidos pela lógica do individualismo e não pela da cooperação e da interconexão de todos com todos, exigida pelo caráter global do problema. Não se firmou ainda na consciência coletiva o fato de que o Planeta é pequeno, possui recursos limitados, se encontra superpovoado, contaminado, empobrecido e doente. Não se fala em dívida ecológica. Não se toma a sério a crise ecológica generalizada que é mais que o aquecimento global. Não são suficientes a adaptação e a mitigação sem conferir centralidade à grave injustiça social mundial, aos massivos fluxos migratórios que alcançaram já a cifra de 60 milhões de pessoas, a destruição de economias frágeis com o crescimento em muitos milhões de pobres e famintos, a violação do direito à seguridade alimentar e à saúde. Falta articular a justiça social com a justiça ecológica.

O que se impõe, na verdade, é um novo olhar sobre a Terra. Ela não pode continuar a ser um baú sem fundo de recursos a serem explorados para benefício exclusivamente humano, sem considerar os outros seres vivos que também precisam da biosfera. A Terra é Mãe e Gaia, tese sustentada sem qualquer sucesso pela delegação boliviana, e por isso sujeita de direitos e merecedora de respeito e de veneração. A crise não reside na geofísica da Terra, mas na nossa relação de agressão para com ela. Nós nos tornamos numa força geofísica altamente destrutiva, inaugurando, como já se fala, o antropoceno, uma nova era geológica marcada pela intensiva intervenção descuidada e irresponsável do ser humano.

Se a humanidade não se acertar ao redor de alguns valores mínimos como a sustentabilidade, o cuidado, a responsabilidade coletiva, a cooperação e a compaixão, poderemos nos acercar de um  abismo, aberto lá na frente.

*Leonardo Boff foi observador na COP-16 em Cancún.


(Envolverde/O autor)

Combate à Corrupção no Governo Lula

Jorge Hage (*)

O mundo celebrou no dia 9 o Dia Internacional Contra a Corrupção, instituído pela ONU.

Nestes dias finais do Governo Lula, é tempo de reflexão sobre o que fizemos e o que ainda precisa ser feito nessa área.

Lembremos as medidas iniciais, a base do que veio depois: o fortalecimento da CGU e da PF e a decisão de fazê-las atuar de forma articulada, em operações conjuntas, desbaratando quadrilhas há muito existentes. Pouco depois, o Sistema de Corregedorias, com uma em cada ministério.

Decisiva foi também a nova relação com o Ministério Público, para que pudesse cumprir sua função constitucional, ao contrário do que ocorria antes, quando um Procurador ganhou a alcunha de “Engavetador-Geral”. Hoje, essa autoridade é apontada pelo voto dos seus pares, o que garante sua autonomia.

No campo da transparência, este governo partiu do zero, tal era a “caixa preta” das despesas. Hoje, o Portal da Transparência é reconhecido como um dos mais completos do mundo, permitindo a qualquer cidadão saber hoje de todos os gastos feitos até ontem à noite pelo governo.

Para afastar a impunidade, que sempre imperou por aqui, já foram demitidos mais de 2,8 mil servidores. Passaram a ser punidas também as empresas fraudadoras: mais de 3,7 mil já estão proibidas de contratar com a Administração. 

Claro que isso não é tudo, pois ainda não se consegue por os corruptos na cadeia, graças às leis processuais e à interpretação dada às garantias do réu. Mas pelo menos os estamos excluindo da Administração.

Esses esforços já ganharam reconhecimento internacional e levaram nosso país a uma posição de liderança. Organismos como a ONU e a OCDE vêm apontando o Brasil como modelo no esforço contra a corrupção.

O país acaba de ser bem avaliado por esta última e de ser convidado para integrar seu Comitê de Governança Pública, em Paris.

Aqui se realizou a Conferência da OEA, pela primeira vez fora dos Estados Unidos. E fomos escolhidos pela Transparência Internacional (TI), para sediar, em 2012, a Conferência Anti-Corrupção, que reúne mais de cem países.

Como se vê, conquistamos confiança e credibilidade.

Pesquisa mundial divulgada pela TI no dia 9, mostra o Brasil no grupo de países menos castigados pela praga da propina: apenas 4% dos entrevistados já foram submetidos a isso, índice igual ao Canadá e melhor que os Estados Unidos e a União Européia (5%). A média da América Latina foi 23% e a mundial 25%.

Mas o item mais divulgado em nossa mídia foi o de 54% das respostas considerando insuficiente o que o governo faz para combater corrupção. Pois bem: a mesma tabela mostra que nos EUA esse percentual é 71%, no Canadá 74, na Alemanha 76, na Inglaterra 66 e na Finlândia 65. Já no Azerbajão é de apenas 26%, no Kenia 30%, em Uganda 24% e em Sierra Leone 12%. Como assim? A tabela está invertida? Não. O que ela mostra é que quando a pergunta envolve “percepção” (em lugar de fatos concretos), a resposta depende do nível de informação, de exigência e de consciência crítica  de cada sociedade. Por isso, é preciso cautela nas comparações.

Mas não resta dúvida que ainda há muito por fazer aqui. Falta a reforma política, a do financiamento de campanhas, a das emendas parlamentares e a das leis processuais, entre outras.

E certas coisas só evoluem com a pressão da sociedade. O exemplo da Lei da Ficha Limpa pode e deve multiplicar-se. Porque é muito importante que o Brasil continue avançando nessa área.


(*) mestre em Direito Público pela UnB (Universidade de Brasília) e em Administração Pública pela Universidade da Califórnia (EUA),  é ministro-chefe da Controladoria-Geral da União.